Luiza ouve o barulho da máquina de lavar:
– tá lavando louça mamãe?
– não filha, tô lavando roupa!
– lavando a louça da roupa!
pra quem ainda não tinha entendido a “adolescência” dos bebês.
Luiza ouve o barulho da máquina de lavar:
– tá lavando louça mamãe?
– não filha, tô lavando roupa!
– lavando a louça da roupa!
pra quem ainda não tinha entendido a “adolescência” dos bebês.
Acordou faz uns 20 min e não parou de falar/cantar um instante. Dentre as pérolas:
“O Papai não tem mamá”
“A cabana chama o castelo”
“Mamãe, acho que a zebra voou”
“Oooolha! Um monte de azul! Azul é blau blau blau”
“Cadê o Papai?” (Foi pra aula)
“Eu tô sem Papai!!” (Abrindo os braços com as palmas da mão pra cima forjando um desespero)
“galinha, o Papai vai voltando”
“Eu quelo pizza de prato roxo”
“A mamãe é muito grande”
Sobe na cama, vai até a beirada e diz “como que você desce agora?”
“Deixei a amalela na cadeila do blau” (o imã amarelo na cadeira azul)
Teremos um longo dia pela frente :)

Eu não diria que choro de saudade. Sou chorona, mas o que dispara meu choro normalmente é a lindeza, não o sorfimento. Eu chorei por diversas vezes desde que pus meus pés em Berlim e, confesso que, na maioria das vezes, o motivo era uma luz dourada batendo num prédio bonito, uma cena cheia de humanidade ou o desenho do horizonte harmonizando com o céu.
Por herança espiritual ou criação (ou por nenhum motivo) eu nunca fui daquelas pessoas que antes da terceira cerveja beija/abraça/distribui contato físico aleatoriamente sem constrangimento. As pessoas precisavam de um certo status na minha cabeça pra invadirem a bolha que delineava meu espaço físico. Ironicamente eu fiz muitos amigos explicando/satirizando minha Teoria da Bolha no fim dos anos 90 e início dos anos 2000.
Com isso, por anos tive a percepção de que não gostava de gente – que na verdade é de longe o meu maior interesse. Levei um bom tempo entendendo que cada coisa é uma coisa e passei a me expressar melhor – e melhor ainda por escrito. Meus abraços existem, são ótimos e os distribuo às pessoas mais queridas do meu mundo.
Eu acredito na capacidade de resiliência das pessoas e, de certo modo, na reprogramação que podemos fazer ao buscarmos novos significados para as sensações de sempre. Não desmereço nenhuma dor e acho que toda ressignificação real acontece de forma gradativa; com entendimento, aceitação, busca interna e por fim a vivência (ou Entrego-Confio-Aceito-Agradeço). Vejam que, quando enumero o processo, não tenho nenhuma propriedade para instaurar tais etapas como verdade. É uma mera análise do que minha terapia me ensinou e como eu consigo lidar com as adversidades automaticamente hoje em dia.
Quando sinto saudade e meus olhos se enchem de lágrimas eu foco na percepção de que é um privilégio poder estar aqui do outro lado do Atlântico, com mil planos e no meio de tanta coisa nova pra aprender e me inspirar. No fim sinto gratidão por ter gente tão querida que me deixa marcas tão positivas na existência e dou um sorriso. Em poucas ocasiões a angústia veio, mas foi assim que a mandei embora… com amor.
Já disse disse que temos sofá cama? Aguardando visitas e abraços.

Eu venho fazendo notas mentais das maravilhas que Luiza diz, porém já faz um tempo que ela tem muita propriedade pra dizer o que quer, e a dicção está cada dia mais “adulta” (o que é engraçado pelo tamanico dela e meio triste pois ela raramente solta um termo bebezento). Sendo assim, por escrito perde toda a graça; não tem como demonstrar a entonação, a pequenez da voz nem os trejeitinhos.
Enfim nos últimos dias, talvez pelo excesso de informação que ela vem recebendo, o cérebro da pequena começou a dar uns nós. Daí eu penso: agora sim temos conteúdo pra um post, haha.
Luiza tem confundido a palavra consegui com consertei. Com isso ela tenta subir em algo e fala “eu não conserto”. Termina um quebra cabeça e fala “eu consertei” – o que faz todo o sentido do mundo. E quando o pai põe pilha em algo ela fala que ele consegou.
“Tá” e “Já” também estão dando trabalho. “Eu tá acordei, mamãe”. “O Bebel já dormindo, Golias já dormindo, Papai já dormindo…”.
Ela confunde a tia Joice com o George irmão da Peppa. Então vê a foto da tia e fala “tia George”. Essa semana encontramos a tia Ju e o tio Guigo, ela chegou em casa perguntando pela tia Gugu.
Eu a vi carregando uma sacola de mercado com estampa de gato. “Filha, onde você vai com a bolsa do gatinho?”. E ela responde “É sacola” (hahah). Outro dia ela queria perguntar sobre, mas esqueceu a palavra, daí disse “cadê aaaa… aaaa… aaaa… aaa… a caixa do gatinho?”. Sim, porque na sacola se guardam as coisas, assim como na caixa. Justíssima troca.
Até um dia desses ela dizia Dipuca quando queria falar desculpa. Agora é deculpa. Reconhece a letra U pra todo lado que vai, por conta do metrô daqui. Adora números, eu digo: “olha filha! Dois gatinhos!” e ela olha pros mesmos dois e diz “olha, quatro gatinhos!”. Papai fez dez anos, tia dinda tem quatro.
Essa noite ela estava um pouco febril e às 3h00 da manhã sentou na cama e disse “quelo ver Pocoyo na telesão” e ela mesmo respondeu “Telesão tá istagado. Não. Telesão tá dumindo, tá cansado… Papai tá cansado, Luiza tá cansado, a Galinha Pitadiha tá cansado… telesão tá cansado…”
A falação não pára durante o sono. Entre uma virada e outra ela balbucia coisas como “eu quelo dançar na sala”, “melancia”, “a bolinha lalanja caiu”, “cuidado Qua-qua!” e um quase que diário “papaiiiii? papaiiii?” seguido de nada.

Em menos de um mês completaremos 2 anos dessa viagem louca que é ser mãe/pai/filha. Ela nos encoraja e alegra todos os dias, nos dá novas perspectivas pra todos os olhares e ajuda a trazer paz pros nossos corações. Todos os dias. A gratidão só aumenta, o amor também.
Luiza vem com um fone de ouvido na mão:
– Mamãe, pode ouvir a música do Bita.
– Filha, mas a mamãe não quer mais ouvir o Bita. Mamãe gosta é de rock’n’roll.
– Pode ouvir a música do Bita.
– Filha, você sabe do que a mamãe gosta?
– Patati Patatá. Bita. Patatá.
– A mamãe gosta de rock’n’roll, filha.
– Rockoll.
– Posso te mostrar a música que eu gosto?
Coloco uma música do QotSA das mais lights, começo a cantar junto. Ela corre, busca o iPad e coloca o Bita no Spotify e vem cantando e dançando com muito mais entusiasmo do que eu.
Desliguei o meu som e tô aqui ouvindo Bita com ela.
Sendo mãe. Desde 2014.
Eu já disse que nossa chegada tem sido suave?
Gente, nenhuma expatriação é serena. Nem as mais suaves. Ela tem sido relativamente branda, agraciada pelo humor da Luiza que ama “todo mundo” (segundo ela mesma) e por diversos anjos sem asas que Deus nos enviou em forma de amigos. Mas a gente estranha, né? Acho que é isso, deve ser um estranhamento.
Eu sempre agradeço pelos desafios que tenho pela frente. Costumo dizer que foco num problema de médio prazo de solução pra ir direcionando minha energia de forma otimizada e ir calculando o tempo das coisas. Mas na verdade é só um jeito de diminuir a ansiedade, já que a vida é essa sequência doida de coisas a serem resolvidas com breves momentos de relaxamento entre eles.
E falando em ansiedade, na semana passada eu dei uma piradinha. Foram 3 dias de muita ansiedade coroados por TOC. Não foi nem perto das grandes crises que já tive na vida – pudera, depois de tanto tempo, esforço, tratamento, auto conhecimento, conexão espiritual… as coisas mudam. Amém.
De um instante pra outro voltei a sentir aqueles impasses desconexos, necessidade de ordenar as coisas, cores e posições, incômodo com as texturas e os cheiros e meus dias ficaram repletos de pequenos rituais com intuito de ordem, porém causando um caos absoluto. A angústia de ter sintomas dos quais me livrei há tanto tempo misturada à certeza de que isso não me pertence e um vestígio de medo daquilo não ir embora. Mas foi. Ufa.
Lembrei das amigas dizendo que quando “a ficha caísse” eu poderia me sentir abalada. Mas sendo isto uma certeza, eu acredito que estou bem preparada pra instabilidade, pra saudade, pros choros, pra reclamar do frio… A mudança de continente está sendo guiada por um sentimento de plenitude e pela vontade do desafio. Não apenas pelo bom, mas pela aceitação de que o difícil não é ruim.
Enfim, ainda consternada eu conversei com algumas outras mães que saíram do país e que também passam pelos desafios que tenho encontrado, falei com meu amado primo que é psiquiatra, fiz listas mentais e físicas, resolvi fazer o avesso do que meu instinto me pedia… e dois dias depois o incômodo cessou.
Tenho uma leve sensação de que pode ter sido algo que me surgiu por um motivo hormonal, dentre outros tantos motivos. E mesmo sem ter a menor idéia da razão eu tenho a certeza de que essa assombração de transtorno me apareceu pra eu me cuidar. Pra ter cautela, buscar saúde e ser empática com as pessoas que piram longe de casa. Porque nossa casa quem identifica é o coração – e o meu identificou essa daqui. Só que colo de mãe, casa de vó e risada com os amigos são minha casa, tanto quanto esse chão que piso.
A distância as vezes se transforma em sintomas ingratos. Que demorem a voltar e sejam cada vez mais breves.
E que a temporada de visitas comece logo!

É estranha a sensação de que meu ano passou de certa forma em branco, e ao mesmo tempo foi o ano mais cheio da minha vida. Não vi muitos filmes, li pouco, estudei menos ainda. Vivi o agora como nunca, pura e simplesmente por necessidade – e as vezes por falta de entendimento. Estive por muito tempo dentro de uma bolha, na qual nem minha essência tinha vez. Acho que só quem se torna mãe pode entender parte do que senti, e não necessariamente todas as mães. Eu um dia virei mãe de alguém sem sequer ter sido mãe das minhas raras bonecas. Me vi amamentando e vendo crescer um pequeno ser, sem jamais ter sonhado com a situação. Passei por um puerpério que até eu mesma duvido do quanto foi fácil e prazeroso.
Enquanto vi dia após dia o milagre da vida na minha frente, um amor que não se mede aprendendo ~a tudo~ from the scratch, comecei a perceber que não me reconhecia mais. Não sabia quem era, e não sabia me gostar. Comecei a ter uma organização de pensamentos que não se parecem com o que sempre entendi como minha, as etapas dos processos se confundiam, a gestão do tempo passou a ser impossível.
Aprendi a amar Luiza, admirar Luiza, querer Luiza e respeitar o tempo de Luiza. Só o tempo da Luiza.
Mas levei algum tempo pra entender que Luiza é um fruto do que eu sou, do que fui, e graças a mim (e ao marido) tenho ela pra me trazer um sentido muito mais forte e visceral pra vida. Sou mamãe de alguém que tem nome, personalidade, faz graça de graça e me ama. É muito menos amedrontador do que me pareceu assim que ela foi descoberta na minha barriga. E sim, é extremamente prazeroso. O difícil não foi cuidar dela, mas sim cuidar de tudo que a modernidade exige que cuidemos, entender que as outras coisas também são importantes, embora parecessem vazias perto do sorrisão que só ela dá.
Foram alguns meses buscando um meio termo entre a vontade de me fazer útil, a falta de uma função específica – e profissionalmente construtiva – e a loop infindável de funções da maternagem. Um ano se passou, e no decorrer, meus pensamentos conseguiram se encaixar novamente no fluxo normal (?), concomitante às ondas enluizadas, e com leves e inofensivas intervenções de Luiza.
Ao me tornar mãe, aquele amor explosivo me partiu em mil pedaços. A função de unir os cacos e entender o que era esse quebra-cabeças foi das mais árduas que posso imaginar. E como tudo que fazemos com amor, empenho e esforço me tornou uma pessoa melhor em resiliência, gratidão, consciência e doação. E talvez em muito mais coisas que ainda não percebi. Não me reconheci imediatamente, porque hoje tenho outra força dentro de mim, que de alguma forma foi substituiu a simplicidade que eu tinha em permanecer apenas na autenticidade do meu – outrora pequeno – EU.
Passei uma semana super inconstante. Nada de TPM, nada de enxaqueca. Apenas uma dificuldade de fazer o que não fosse estritamente essencial. Entre carnaval e o resto da semana, praticamente me limitei a arrumar a casa, visitar a mamãe no hospital e trabalhar muito. E cada hora me pareceu pesada. E o cansaço aparecia antes e maior do que o padrão.
Depois de 3 dias focada na reposição da minha energia – com exercícios, estudos e muito descanso – aqui estou num raro estado insone. Preocupações das mais diversas condensadas numa noite de domingo/segunda: os elefantes do circo, gatos e cachorros abandonados, machismo, as contas a pagar, minha alimentação, o desconforto da minha cachorrinha que está no cio, estratégias pro trabalho, e tudo isso coroado pelo som de um vazamento de água saindo do meu banheiro – que me remete ao texto que li recentemente sobre a criação do hábito das garrafinhas de água e a quantidade de lixo que estamos produzindo… Imaginou?
Yeah. Não tem fim.
Esses pensamentos cíclicos já foram basicamente a forma que meu cérebro trabalhava. Conheço bem esse funcionamento, e nessa hora uma série de comportamentos malucos tomam conta de mim. Levantei, arrumei o sofá, coloquei os telefones e controles paralelos uns aos outros, guardei o que estava sobrando e empilhei as almofadas, endireitei as cadeiras e resolvi escrever pra redirecionar o bolo.
Que me lembra outra história….
Com 19 anos eu tive uma crise depressiva e, sem saber do que se tratava, fui a um médico que em menos de 5 minutos me “diagnosticou” e me passou uma série de textos pra ler e remédios da moda. Por muito tempo sofri com essa questão, sem entender o que sentia nem o que estava acontecendo. Entrei e saí de tratamentos diversos e boa parte das minhas lembranças dessa fase são turvas.
Foi quando, meio que por acaso, comecei a investir em auto conhecimento, por meio de textos e terapias das mais diversas. Quase 10 anos depois do inicio dessa jornada, vejo que o doutor maluquinho que me mandou aprender sobre TOC não estava de todo errado. Minhas ansiedades se escondem num comportamento obsessivo, que hoje consigo facilmente identificar e usar a meu favor.
Voltando ao presente: são 2:00 da manhã e eu estou presa num mundo infinito de intenções. Solução imediata: listas (thanks, Evernote!) pra mensurar o que é meu, mentalizar estratégias e dar vazão. Segundo passo: intensificar as atividades aeróbicas essa semana pra suar a maluquice e, no devido tempo, eliminar os itens da lista.
No fim vou perceber que os motivos que transitam pela mente nesse momento, pouco ou nada tem a ver com a fonte da ansiedade – o que me faz pensar 50 vezes antes de empurrar a frustração na família e nos amigos. E mais uma vez terei uma boa dose de aprendizado sobre meu corpo, meus limites e mais ferramentas pra otimizar a forma doida que eu funciono.
O que sei desde já é que: também vai passar :)
Dica: http://youtu.be/V0gquwUQ-b0
Vale cada segundo.
Tantas formas maravilhosas de dizer.
“Enquanto o dedo indicador aponta pro outro, 3 outros dedos apontam pra você” é outra super visual.
O auto conhecimento é uma “viagem” cara, cansativa e infinitamente mais difícil de assimilar do que estamos habituados.
Exercício da semana: meditar sobre mim. O que é meu, quais as minhas falhas e pelamordedeus, entender a naturalidade e a importância dos erros. E “largar de mão” de ser controladora, se cada um se coloca no próprio espaço a segurança e assertividade vem – acho que minha enxaqueca paira aí, nessa necessidade de controle.
Serve pra mim, serve pra você, serve pra sua mãe e pra sua tia.
As vezes preciso me repetir pra relembrar as pequenas coisas que aprendi com a vida que me fazem querer ser melhor. Minha maior terapia e a mais eficiente e falar, falar e falar. Tento replicar conhecimento alheio e próprio pra suavizar situações, trazer mais leveza pra correria e diversão pra quebradeira.
Das coisas que mudaram a minha vida – além de “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” e “muito ajuda quem não atrapalha” (viva Chaves) – e que gosto de relembrar:
-A vida não é fácil, não é segura e não é justa. Mesmo assim devemos ser gratos a nossos pais pelo dom de tê-la, porque é indiscutivelmente uma bênção;
-Pertencimento é um dos pilares da vida. Estar onde se quer estar, se sentindo bem com o que se está fazendo é garantia de sucesso. Ou da percepção do sucesso (pra que mais?);
-Reconhecimento é opcional. Água, sono e amor são necessários;
-Um copo de água e senha de wifi não se nega a ninguém;
-Problema é desafio. Erro é aprendizado. Conhecimento é mato;
-Humildade nunca é demais;
-Paciência nunca é demais;
-Pedir ajuda é um baita ato de coragem <3
-Expectativa atrapalha, projetos animam;

Eu tenho vontade de engolir o mundo inteiro as vezes. Mil projetos, e a ansiedade em dar o primeiro passo e depois ir adiante. E vez por outra me sinto completamente perdida – como foi que eu vim parar aqui meu Deus do céu… e de repente – pra quem acredita em acaso – as forças do universo vem e montam um quebra-cabeças de luz na sua frente, explicando tudo. Daí vem essa sensação: pertencimento. Sentir na vida e no dia a dia o mesmo conforto que pode-se sentir ao chegar em casa, se descalçar e ficar em família. Em outra escala, mas com igual leveza.
Sim, eu estou no lugar que deveria estar, dando o melhor de mim, no momento certo da minha vida. Não é perfeito, nunca será. Precisava de mais 2 ou 3 dias na semana pras coisas saírem mais certinhas, como eu gostaria realmente, mas não tendo tu, vai tu.
Esperando, curtindo, amando, aprendendo e sorrindo.