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Eis

Essa semana eu tive prova do curso de alemão. Tô basicamente na metade do que seria o nível básico de alemão.
Minha maior satisfação foi saber tudo o que estava sendo dito na prova inteira e entender as questões. O bônus foi ver os colegas que eu acho que falam muito melhor do que eu me pedindo cola, hahahaha.

Eu percebi que realmente tenho uma afinidade com a gramática, pelo menos no nível básico que tenho sido apresentada. Os fonemas estão se tornando mais familiares, porém preciso ainda de muitas horas diárias pra criar a memória auditiva. O fato de sermos uma família brasileira é maravilhoso em mil aspectos, principalmente pela certeza de que Luiza jamais perderá o português que ela exercita com a gente. Mas passo 90% do tempo vivendo em Português, e isso “atrasa” o desenvolvimento da terceira língua.

Não posso dizer, porém, que não estou satisfeita. Hoje eu me vi na mesma sorveteria que estive há 6 meses. Da primeira vez eu não fazia a menor idéia do que eram os nomes dos sabores e a minha amiga precisou pedir pra gente. Hoje eu entrei, na fila captei algumas conversas, ri do vendedor brincando com as crianças, compreendi os sabores, escolhi, pedi certinho, educada, respondi as perguntinhas básicas do atendimento (tipo copo ou casquinha!) e me despedi agradecendo aos céus por saber como as coisas mudam.

Além disso, tenho me percebido uma fã incondicional do meu quarteirão e seus arredores. A sorveteria natureba, a cafeteria famosa, os restaurantes deliciosos, os bolos do café da esquina, o visual do restaurante/livraria, as galerias de arte, a padoca de 130 anos… E morro de emoção quando reconheço alguém com quem já troquei um bom dia ou pedi uma informação andando aqui no bairro. É muito bom se sentir em casa poucos meses após mudar de continente.

Talvez seja pela minha cerveja favorita, talvez pelo queijo divino que comprei na promoção por menos de 2$ ali no mercado. Talvez seja pelo sol que saiu hoje e deu um sample de primavera, pela visita do cunhado ou porque mamãe e irmã jajá estão chegando também pra visitar… O mais provável é que, pela soma de tudo e por um tanto mais que tem acontecido: estou feliz como há muito não me sentia.

Ich freue mich auf die Zukunft.

Dois lados de uma mesma moeda

PRIMEIRO ATO

Ontem fomos ao Jungenamt atrás do Kita Gutschein pra podermos colocar Luiza no KiTa.

(Viram como eu disse ali umas palavras que só fazem sentido aqui? Pois é, essa é minha esperança. Eu vou aprender alemão, aguarde e confie)

O Jungenamt é o nosso juizado de menores e, ao contrário do Brasil, pra matricular um filho na escolinha (Kita) devemos ter uma “autorização” – literalmente um voucher (Gutschein) – dizendo por quantas horas você pode deixá-lo lá. Posso estar perdendo alguns pontos da explicação, mas basicamente é isso.

Daí uma amiga me ajudou preenchendo os documentos online e eu reuni todos os dados necessários (registro de residência na cidade, cópias de passaporte e matrícula no curso de alemão – ainda faltou o documento que comprova o trabalho do Fabricio). Sim, amigos, estamos num país extremamente burocrático. A diferença é que aqui a burocracia não é redundante, ela é extensa porém direta.

Enfim, depois de um grande esforço pra entender onde era o local onde eu deveria entregar a documentação, jogamos o endereço no Google Maps nosso mais fiel escudeiro e tomamos dois ônibus até lá. Chegamos cerca de 20 min antes do fim do horário de atendimento. No primeiro ponto eu perguntei se podia falar inglês, o rapaz me respondeu que não – em alemão, claro. Apontei pro documento que eu tinha em mãos e ele me respondeu em inglês pra eu ir até o Infopoint.

Sim, eles me parecem confusos às vezes.

No Infopoint, que era bem na porta desse prédio gigante e lindo – que eu me arrependo no momento por não ter fotografado, mas o farei em breve – eu fiquei esperando até que algum dos dois pontos de atendimento vagassem. Porque já aprendi aqui que você aborda o atendente, e não o contrário.

Neste momento, meus amigos, algo muito emocionante me aconteceu: eu proferi meia dúzia de palavras em alemão e… ELA ME ENTENDEU! (inserir fogos de artifício aqui) Eu tive muito orgulho de mim por ter conseguido me comunicar. Mas obviamente não entendi praticamente nada do que ela me disse. Só post e haus, logo eu soube que me mandariam o que quer que fosse pelo correio. Claro, fiquei insegura e pedi minha amiga pra perguntar se era isso mesmo pelo áudio do whatsapp, que eu mostrei pra tia e mandei outro de volta com a resposta pra ela me confirmar.

Resultado: funcionou. Preciso voltar lá pra terminar de entregar a documentação, mas o processo está encaminhado.

SEGUNDO ATO

No Kita, preenchendo o papel de requerimento de vaga (sim, porque não basta o voucher, você ainda luta até conseguir uma vaga).

Atendente: Endereço?
Cintia: Merseburger strasse
A: Bitte?
C: Merseburger strasse
A: Sorry, I don’t get it.
C: Merseburger strasse. Let me show you (e abro o Google Maps mostrando o nome da rua)
A: Ah, ok. Merseburger strasse.
C: Como vocês pronunciam em alemão?
A: Merseburger strasse.
(este diálogo aconteceu em inglês)

Eu juro que falei a mesma coisa que ouvi. Juro. Ela só disse mais devagar. Tem alguma coisa muito errada.

Sim, às vezes eu pareço confusa pra eles.

E a aventura continua.

O vazio de um ano cheio

É estranha a sensação de que meu ano passou de certa forma em branco, e ao mesmo tempo foi o ano mais cheio da minha vida. Não vi muitos filmes, li pouco, estudei menos ainda. Vivi o agora como nunca, pura e simplesmente por necessidade – e as vezes por falta de entendimento. Estive por muito tempo dentro de uma bolha, na qual nem minha essência tinha vez. Acho que só quem se torna mãe pode entender parte do que senti, e não necessariamente todas as mães. Eu um dia virei mãe de alguém sem sequer ter sido mãe das minhas raras bonecas. Me vi amamentando e vendo crescer um pequeno ser, sem jamais ter sonhado com a situação. Passei por um puerpério que até eu mesma duvido do quanto foi fácil e prazeroso.

Enquanto vi dia após dia o milagre da vida na minha frente, um amor que não se mede aprendendo ~a tudo~ from the scratch, comecei a perceber que não me reconhecia mais. Não sabia quem era, e não sabia me gostar. Comecei a ter uma organização de pensamentos que não se parecem com o que sempre entendi como minha, as etapas dos processos se confundiam, a gestão do tempo passou a ser impossível.

Aprendi a amar Luiza, admirar Luiza, querer Luiza e respeitar o tempo de Luiza. Só o tempo da Luiza.

Mas levei algum tempo pra entender que Luiza é um fruto do que eu sou, do que fui, e graças a mim (e ao marido) tenho ela pra me trazer um sentido muito mais forte e visceral pra vida. Sou mamãe de alguém que tem nome, personalidade, faz graça de graça e me ama. É muito menos amedrontador do que me pareceu assim que ela foi descoberta na minha barriga. E sim, é extremamente prazeroso. O difícil não foi cuidar dela, mas sim cuidar de tudo que a modernidade exige que cuidemos, entender que as outras coisas também são importantes, embora parecessem vazias perto do sorrisão que só ela dá.

Foram alguns meses buscando um meio termo entre a vontade de me fazer útil, a falta de uma função específica – e profissionalmente construtiva – e a loop infindável de funções da maternagem. Um ano se passou, e no decorrer, meus pensamentos conseguiram se encaixar novamente no fluxo normal (?), concomitante às ondas enluizadas, e com leves e inofensivas intervenções de Luiza.

Ao me tornar mãe, aquele amor explosivo me partiu em mil pedaços. A função de unir os cacos e entender o que era esse quebra-cabeças foi das mais árduas que posso imaginar. E como tudo que fazemos com amor, empenho e esforço me tornou uma pessoa melhor em resiliência, gratidão, consciência e doação. E talvez em muito mais coisas que ainda não percebi. Não me reconheci imediatamente, porque hoje tenho outra força dentro de mim, que de alguma forma foi substituiu a simplicidade que eu tinha em permanecer apenas na autenticidade do meu – outrora pequeno – EU.
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