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Tesoura

Das doçuras da vida:
Luiza ganhou da tia Rejane há pouco mais de um ano uma “tesoura” num jogo de massinha de modelar; amarela, minúscula e toda de plástico, perfeita pro propósito.
Aqui estamos, 3 anos e 4 meses de esperteza com as palavrinhas, uma ótima coordenação motora e a inocência do tamanho dum bonde.
Toda vez – toda vez mesmo – que eu mencionava que precisava de uma tesoura pra cortar algo, fosse um fio, uma corda, tecido ou papel, ela instantaneamente me dizia:
— com a minha amarela?
O tempo foi passando e eu passei a responder que aquela não dava, porque ela é de massinha. Hoje ela pediu pra tirar esse (gancho) prateado das cabeças da Swoops e da Mimi, eu disse que dava pra cortar com a tesoura.
— pode ser minha tesoura amarela de massinha?

A frase aumenta, a fofura permanece.

Marielle Presente

Eu adoraria ter conseguido falar sobre o que senti ontem com a notícia da execução de Marielle Franco. Não falei, só chorei.
Eu adoraria dizer que tenho esperança. Eu queria conseguir explicar pra minha filha a razão da minha tristeza e dos meus choros pontuais. Como eu queria ter vindo morar fora só pra realizar um sonho e não pra fugir do medo diário, do desgaste de energia, da desesperança de estabilidade e de um abismo social longe de ser tratado. Da educação elitizada – que perde muito de seu propósito e seu valor, na minha opinião.
A execução covarde de uma vereadora defensora dos direitos humanos, da vida humana, que dava voz a gente que merece ser ouvida me dilacera por dentro. Representatividade importa. Ela o fez com a coragem que se deve ter quando se ocupa tal espaço.
“Preto, mulherzinha, viadagem, macumbeiro, favelado”. Inferiorizados e calados.
Me intriga. Me dá asco a ousadia, covardia dessa gente branca, ultrapassada, ignorante que não sabe que o preconceito os faz muito menos humanos do que qualquer dos marginalizados por eles próprios.
A dor me toma conta diante de tudo que leio. O horror em ver tanta gente atordoada, eu sem saber como reagir, a vontade de gritar e pedir perdão por todos, por tudo.
Não tenho mote, não consigo formular muito… não tem graça, não tem início meio e fim. Hoje meu post é um mero desabafo: desconcertado, abafado e triste. Deus nos proteja…

Planejamento ou fome

Tava ontem falando pra Claudia Ramos que, nesse primeiro ano de Berlim, a minha única reclamação era o breu. Os dias estão ficando rapidamente mais curtos e daqui a pouco a gente tem menos de 7 horas corridas de luz do sol. Mas a vida é cíclica, o outono acaba e o inverno chega aumentando os dias pouco a pouco… uma coisa linda de se ver e de se aceitar. Aprendizado, superação, sascoisatudo.
Daí hoje é domingo. Praticamente nada no comércio abre (com excessão de restaurantes ou pontos longe-da-minha-casa que tem mercado caso haja uma emergência). E eu não tenho mais polvilho e tô louca de saudade do pão de queijo que acabou essa semana.
Na Alemanha ou você aprende a se planejar ou você aprende a se planejar.
Bom dia.

2 anos e 9 meses

Ela quer uma história específica mas não acha o livro. Eu digo “aí complica né filha?”. Me responde com as mãozinhas gordas em tom teatral feat. italiano:
“O complicado complica as coisas… porque… as coisas ficam muito complicadas. Ele. O complicado”.
Eu seguro o riso e concordo.
PS: Ela chama o ponto de interrogação de “complicado” porque uma vez ela perguntou o que era e eu falei que isso era complicado.

“Esse do biquíni é de por no mamá da mamãe. Mamãe, quando você fizer três anos você pode por assim” – e põe o sutiã na cabeça.

Hoje estávamos andando no metrô, ela me disse “mamãe, eu te amo”. Ainda ontem eu comentei com uma amiga que ela às vezes diz que me ama só um pouquinho. Essa espontaneidade dá um sabor especial à declaração.

Cada dia que passa a pequena me deixa mais orgulhosa das suas descobertas, mais emocionada pela sua personalidade e mais realizada pela companhia. Ela é um mundo de ensinamentos e me dá um caminhão de trabalho.

Vale cada segundo.

Págens

Luiza um dia começou a chamar as páginas do livro de “págens”. Eu corrigi. Desde então ela fala página pra tudo que tá afim. Se bem conheço minha cria, deve ter uma lógica, mas ainda nao captei.

“Mamãe, essa é a página do metrô”, enquanto anda pela estacão.
“Mamãe olha aqui essa página” vendo o rótulo de um produto.
“essa é a página da piscina” olhando a placa da entrada.

A confusão permanece, porque ela acha que a língua com a qual nos comunicamos se chama Alemanha e se refere ao alemão que ela fala na Kita como Deutsch. Acho justo, mas fico meio perdida se corrijo ou não – principalmente porque já tentei e não adiantou.

Ideias?

Kaputt geworden

Luiza, quase 32 meses, com o bilinguismo batendo forte.

Sobe no sofá e diz “Ich versuche nochmal” (eu tento de novo)
depois de dez tentativas ela quase toma um tombo e fala repetidamente “ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt!”
Sem entender eu falo:
– Filha, fala em Alemanha – pois ela chama alemão de Deutsch e Português de Alemanha.
– Eu CAPUTEI! (eu capotei)

E mais associações maravilhosas estão por vir… haha

Um sonho

No meio da madrugada a Luíza dá um grito. Eu, de praxe, abraço ela e digo “calma, tá tudo bem”. Aos 2 anos e meio ela, pela primeira vez, desenvolveu o assunto:
– É que o meu copo da Peppa derramou… na piscina… porque a menininha derrubou o meu copo… e o copo fugiu na piscina.
Expliquei que era sonho, que o copo tava na cozinha e que a mamãe e o papai estavam aqui com ela.
– mamãe, tem uma dona aranha
– subindo na parede?
– é… Subindo no meu braço.
– ela deve estar querendo brincar com você.
– porque… ela… fez dodói no meu cotovelo.
– Então a mamãe passa Água Rabelo.
– Tem mosquito no meu pé.
Segurei os pezinhos e falei – pronto. Esse mosquito não faz nada, é só mexer que espanta. Mas filha, a gente está em casa. Você tá sonhando com a piscina. Tá no quarto com a mamãe e o papai.
Silêncio. Pediu água.

Logo depois dormiu de novo.

Maternagem Eterna

Tento fazer do meu blog algo além da maternagem, mas não por acaso tenho sido mãe 24h por dia. E nunca pensei que essa tarefa fosse me pertencer, muito menos ~tomar tanto tempo na minha vida. Porque mesmo quando eu estou estudando, quando estou escrevendo, quando estou passeando, eu sou mamãe. E minha prioridade 1 na vida é ter uma cria saudável; a número dois é tentar ajudá-la a se tornar um adulto forte, de caráter e, acima de tudo, humano.

Depois disso vem aquela parte de diversão, grana, carreira (hahaha) e sei lá mais o quê. Claro que a gente não pausa uma parte da vida pra viver outra, mas é nítido como atualmente tudo gira em torno do bem estar da nossa família.

Pois bem, eu parei de amamentar a Luiza faz uns 2 ou 3 meses, eu não sei ao certo. Não planejei o desmame e acabei não memorizando a data em que ele aconteceu. Desde então eu convivo com muitas mães que ainda amamentam, com filhos – em sua maioria – menores que Luiza, e sempre me vejo tentando falar algo sobre a minha experiência, embora eu tenha convicção de que não necessariamente vai ajudar. Daí entra o meu exercício de empatia e acolhimento – e menos falação.

Mas aqui é meu lugar de falação, hehe.

Não vejo obrigatoriedade da amamentação e agradeço aos céus por ter amamentado a Luiza tanto tempo, mesmo achando que, na minha percepção pessoal, não parece tanto tempo assim. Cada caso é um caso, e o meu por sorte foi muito mais suave do que vejo por aí.

Sim, houveram incontáveis noites em que ela acordava incontáveis vezes. E ela mamava e eu dormia. Em várias ocasiões ela também doriu na própria caminha até 3 ou 4 da manhã, pra depois acordar 5-9 vezes antes das 8h. Eu não fiquei sã o tempo todo, as vezes eu ficava bem cansada. Mas daí eu pensava no quanto ela ia ser bebê por pouco tempo. Eu mesma tô aqui com 33 anos e só mamei até os 3. Depois passei a dar outros tipos de trabalho pra minha mãe 🙂

Agora estamos numa fase super tranquila. O Terrible Two é uma grande piada por aqui, ela chora pra fazer coisas que já estão em curso, mas também para logo. Quer fazer tudo sozinha. Na maioria das vezes eu deixo, e pronto. As vezes ela chora porque não quer que eu escove os dentes dela, mas em 20 segundos ela abre a boca e se contenta em segurar a ponta da escova. Eu tenho um anjinho, ela é um amor, ela passa dias sem chorar, consegue se comunicar muito bem e isso diminui bem sua frustração ; talvez por isso ela chore pouco. Confesso que tentei me preparer pra algo muito pior.

Ela no mundo

Mas como se sabe, cada um sabe a dor e a delícia da sua própria vida, e por aqui eu aprendi a agradecer pelas bênçãos, pelas tretas e entender que tudo é normal. Vai ter dia difícil, vai ter dia mágico e faz parte da vida, então me altero pouco. Imagino que, por uma eventualidade, a vida pode acabar aqui, amanhã, ou daqui a 100 anos, e não quero estar pensando que estava me lamentando. É um exercício pesado no início, mas eu me acostumei e hoje agradeço até pelas chuvas e pelas meias rasgadas.

E em dias terríveis de decepções, mortes, desesperanças políticas, impasses… nada melhor do que ter um amor imenso sorrindo e dando esperanças de que em algum momento estes seres de luz vão fazer o mundo brilhar.

Natgeo Berlim

Numa manhã comum, fomos levar a pequenina de bike pro KiTa. Fomos os dois, pois no sistema deles a cada semana uma das crianças leva o café da manhã, portanto a cada 10 semanas somos nós. Fui, então, levando as compras e Fabrício foi levando a pequena.

Saindo de lá, flagramos um Corvo atacando, matando, depenando e comendo um pardal. Anteontem eu tinha visto um outro corvo comendo um pombo que estava recém morto e pra mim foi suficientemente perturbador. O de ontem foi um pouco mais intenso.

Em seguida, voltando pra casa, passamos em frente a um parque no quarteirão de baixo e vi uma raposa. Gritei pro Fabricio olhar e, não sei se por isso ou pelo movimento das bicicletas, ela recuou e ficou olhando a gente passar.

Voltei pra casa quase tão eufórica quanto a vez que estava em Pipa vi um golfinho pelo qual eu não estava procurando nem esperando, hahaha. Quase esqueci aquele corvo…

É muita emoção na vida do imigrante, e tudo antes das 9h00.

Natgeo Berlin

E a aventura continua.

PS: uma vez eu vi um carcará atacando um joao de barro e destruindo a casinha pra alcançá-lo. Também não achei bonito.

Renovação

Passamos alguns dias sem post com a visita do tio Dindo da Luiza aqui em Berlin. Tenho muito orgulho de ver como o tempo passa e a pequena nutre o amor pelos familiares apesar da distância, e entende como precisa aproveitar a presença, pois estão nos visitando – ou seja, vão voltar pro Brasil em breve.

Isso significa que ela passa os dias com um excelente humor, distribui abraços, sorrisos, faz graça e no fim se despede sem choro, com abraço forte e muito carinho. A gente acha que ela tem uma tristezinha nos dias que se seguem, que acaba sendo demonstrada com dificuldade de sono e um pouquinho de choro, mas ela não questiona a condição de estarmos aqui e eles não.

Eu acho que já mencionei isso aqui (to com vestígio de enxaqueca e muita preguiça pra me certificar, sorry), mas acredito que a Luiza crescendo com acesso a duas línguas e meia, tendo uma cultura dentro de casa e outra na rua, com horas de Skype, visitas e amor, vai ter uma construção diferente da nossa quando se trata de saudade e distância.

Eu assimilei que as vezes estamos próximos das pessoas fisicamente, mas o coração tá distante… e vice-versa. Porém eu assimilei isso com quase 30 anos, já ela tem 2 e é assim que tento ensinar. Fico feliz quando ela, espontaneamente, no meio da nossa oração, agradece pela casa nova, pelo metrô de Berlin, pela neve e pelos avós e tios. São indícios de que ela ama tudo que a cerca por aqui, e tudo que deixamos lá.

Recentemente fui buscá-la no Kita e ela pediu pra dar um abraço numa das cuidadoras antes de ir. O abraço levou tanto tempo pra terminar que fiquei levemente constrangida, mas a Soledad (sim, ela é chilena e muito amorosa!!) parecia estar curtindo aquele abração sem fim tanto quanto a Luiza… O constrangimento virou orgulho e gratidão.

Receber gente que amamos na nossa casa, no país que escolhemos e nos escolheu, é revigorante e acalentador. Continuamos lutando pelo nosso espacinho aqui, pela integração, conhecendo mais gente, mais lugares e felizes e pelo que vem acontecendo no nosso percurso.

Danke, Deutschland!