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Kaputt geworden

Luiza, quase 32 meses, com o bilinguismo batendo forte.

Sobe no sofá e diz “Ich versuche nochmal” (eu tento de novo)
depois de dez tentativas ela quase toma um tombo e fala repetidamente “ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt!”
Sem entender eu falo:
– Filha, fala em Alemanha – pois ela chama alemão de Deutsch e Português de Alemanha.
– Eu CAPUTEI! (eu capotei)

E mais associações maravilhosas estão por vir… haha

Pedro Voa Souto

Eu não convivi com Pedro. Embora ele tenha almoçado na minha casa, tenha tocado por um curto período com meu marido, eu estava numa fase conturbada, delicada e não consegui interagir com ele. Porém testemunhei a admiração enorme que Fabricio tinha por aquele garoto.

Um monstro em talento, uma enciclopédia do rock (deixando nossas enciclopédias favoritas boquiabertas), um sorriso doce. Quando ele me foi apresentado eu não acreditei que aquele menino era tudo aquilo que ouvia dizer, não o associei às histórias que ouvi, levei uns 20 minutos depois do encontro pra entender que aquele Pedro era “o” Pedro. Era 2011 ou 2012, não sei com exatidão, mas ele era ainda mais jovem, com cara de criança mesmo, rs.

Os anos se passaram, e como a maternidade veio eu perdi o fio da meada no rock. Mas via os vídeos no Facebook, acompanho à distância a genialidade dos garotos brasilenses fazendo jus ao rótulo da cidade de “berço do rock”. É de uma energia incrível, a forma como a cultura vem se desenvolvendo – independente, forte, psicodélica, inspirada e louca.

foto de Artur Dias

E Pedro representa essa energia, com um grande peso em carisma, amabilidade e o puta talento (com o perdão do palavrão pela falta de um termo maior). Ele estava lá. Não está mais – não neste palco, não neste plano.

Eu creio nos planos divinos, acredito que não há acaso e que jovens que fazem a passagem “cedo” cumpriram seu papel. Mas isso não me impediu de estar abalada. Uso todos os argumentos possíveis pra tentar acalmar meu marido, mas enquanto falo o que penso meu coração chora junto.

Me vem flashes dos amigos sorridentes, falando do Pedro com um amor e admiração profundos, dos vídeos de assisti há menos de um mês da banda em que ele tocava e me engasgo. Quando soube que ele estava mal eu jamais acreditei que este seria o desfecho.

Tenho raiva por ter aprendido a sofrer com a morte. Acredito que é uma passagem, que pra morrer basta estar vivo. Se houvesse distinção de idade, caráter e talento o Pedro estaria aqui.

Aos amigos em comum, aos familiares dele … que o tempo conforte seus corações. E que ele esteja em paz. Aqui em casa seguimos em luto, porém seguindo.

Natgeo Berlim

Numa manhã comum, fomos levar a pequenina de bike pro KiTa. Fomos os dois, pois no sistema deles a cada semana uma das crianças leva o café da manhã, portanto a cada 10 semanas somos nós. Fui, então, levando as compras e Fabrício foi levando a pequena.

Saindo de lá, flagramos um Corvo atacando, matando, depenando e comendo um pardal. Anteontem eu tinha visto um outro corvo comendo um pombo que estava recém morto e pra mim foi suficientemente perturbador. O de ontem foi um pouco mais intenso.

Em seguida, voltando pra casa, passamos em frente a um parque no quarteirão de baixo e vi uma raposa. Gritei pro Fabricio olhar e, não sei se por isso ou pelo movimento das bicicletas, ela recuou e ficou olhando a gente passar.

Voltei pra casa quase tão eufórica quanto a vez que estava em Pipa vi um golfinho pelo qual eu não estava procurando nem esperando, hahaha. Quase esqueci aquele corvo…

É muita emoção na vida do imigrante, e tudo antes das 9h00.

Natgeo Berlin

E a aventura continua.

PS: uma vez eu vi um carcará atacando um joao de barro e destruindo a casinha pra alcançá-lo. Também não achei bonito.

Renovação

Passamos alguns dias sem post com a visita do tio Dindo da Luiza aqui em Berlin. Tenho muito orgulho de ver como o tempo passa e a pequena nutre o amor pelos familiares apesar da distância, e entende como precisa aproveitar a presença, pois estão nos visitando – ou seja, vão voltar pro Brasil em breve.

Isso significa que ela passa os dias com um excelente humor, distribui abraços, sorrisos, faz graça e no fim se despede sem choro, com abraço forte e muito carinho. A gente acha que ela tem uma tristezinha nos dias que se seguem, que acaba sendo demonstrada com dificuldade de sono e um pouquinho de choro, mas ela não questiona a condição de estarmos aqui e eles não.

Eu acho que já mencionei isso aqui (to com vestígio de enxaqueca e muita preguiça pra me certificar, sorry), mas acredito que a Luiza crescendo com acesso a duas línguas e meia, tendo uma cultura dentro de casa e outra na rua, com horas de Skype, visitas e amor, vai ter uma construção diferente da nossa quando se trata de saudade e distância.

Eu assimilei que as vezes estamos próximos das pessoas fisicamente, mas o coração tá distante… e vice-versa. Porém eu assimilei isso com quase 30 anos, já ela tem 2 e é assim que tento ensinar. Fico feliz quando ela, espontaneamente, no meio da nossa oração, agradece pela casa nova, pelo metrô de Berlin, pela neve e pelos avós e tios. São indícios de que ela ama tudo que a cerca por aqui, e tudo que deixamos lá.

Recentemente fui buscá-la no Kita e ela pediu pra dar um abraço numa das cuidadoras antes de ir. O abraço levou tanto tempo pra terminar que fiquei levemente constrangida, mas a Soledad (sim, ela é chilena e muito amorosa!!) parecia estar curtindo aquele abração sem fim tanto quanto a Luiza… O constrangimento virou orgulho e gratidão.

Receber gente que amamos na nossa casa, no país que escolhemos e nos escolheu, é revigorante e acalentador. Continuamos lutando pelo nosso espacinho aqui, pela integração, conhecendo mais gente, mais lugares e felizes e pelo que vem acontecendo no nosso percurso.

Danke, Deutschland!

Eis

Essa semana eu tive prova do curso de alemão. Tô basicamente na metade do que seria o nível básico de alemão.
Minha maior satisfação foi saber tudo o que estava sendo dito na prova inteira e entender as questões. O bônus foi ver os colegas que eu acho que falam muito melhor do que eu me pedindo cola, hahahaha.

Eu percebi que realmente tenho uma afinidade com a gramática, pelo menos no nível básico que tenho sido apresentada. Os fonemas estão se tornando mais familiares, porém preciso ainda de muitas horas diárias pra criar a memória auditiva. O fato de sermos uma família brasileira é maravilhoso em mil aspectos, principalmente pela certeza de que Luiza jamais perderá o português que ela exercita com a gente. Mas passo 90% do tempo vivendo em Português, e isso “atrasa” o desenvolvimento da terceira língua.

Não posso dizer, porém, que não estou satisfeita. Hoje eu me vi na mesma sorveteria que estive há 6 meses. Da primeira vez eu não fazia a menor idéia do que eram os nomes dos sabores e a minha amiga precisou pedir pra gente. Hoje eu entrei, na fila captei algumas conversas, ri do vendedor brincando com as crianças, compreendi os sabores, escolhi, pedi certinho, educada, respondi as perguntinhas básicas do atendimento (tipo copo ou casquinha!) e me despedi agradecendo aos céus por saber como as coisas mudam.

Além disso, tenho me percebido uma fã incondicional do meu quarteirão e seus arredores. A sorveteria natureba, a cafeteria famosa, os restaurantes deliciosos, os bolos do café da esquina, o visual do restaurante/livraria, as galerias de arte, a padoca de 130 anos… E morro de emoção quando reconheço alguém com quem já troquei um bom dia ou pedi uma informação andando aqui no bairro. É muito bom se sentir em casa poucos meses após mudar de continente.

Talvez seja pela minha cerveja favorita, talvez pelo queijo divino que comprei na promoção por menos de 2$ ali no mercado. Talvez seja pelo sol que saiu hoje e deu um sample de primavera, pela visita do cunhado ou porque mamãe e irmã jajá estão chegando também pra visitar… O mais provável é que, pela soma de tudo e por um tanto mais que tem acontecido: estou feliz como há muito não me sentia.

Ich freue mich auf die Zukunft.

Sobre dias de sol #eis #Schöneberg #berlin #berlinexpats

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A série

Eu tenho uma série mental de coisas que me lembram o quanto eu amo/devo agradecer por estar aqui.

Resolvi registrar. Pra começar, já pedindo perdão aos vegetarianos:

Currywurst.

Currywurst
Currywurst

Por que?

Por muitos anos eu dizia que cachorro quente era minha comida preferida. Enjoei faz tempo, mas eu sempre senti falta do salsichão que eu comia na AABB quando era micro criança em Belo Horizonte. Na época eu comia com mostarda. (aliás, as mostardas daqui tão na minha lista também)

Passei uns anos frustrada procurando salsichão nas barracas de churrasquinho de festa junina. Me lembro de algumas situações específicas de pedir salsichão olhando o cardápio e o tio dizer que não tinha. Ano passado na fila da barraquinha de churrasquinho tivemos um papo sobre isso com um estranho, também frustrado pela falta da iguaria. A dona do lugar/churrasqueira disse que há anos não via pra comprar, por isso nem pensou em levar.

Daí eu chego em Berlim no verão de 2016, e a primeira coisa que a gente come – ainda no aeroporto – pra trocar o $ do ticket do metrô: Currywurst mit Pommes. Gente, é salsicha com ketchup, curry e batatinha frita. E eu, que nunca na vida comi ketchup, amei.

Minha amiga que estava comigo na ocasião disse que era típico aqui, que tinha em toda esquina, e eu pensei ‘ok, então eu posso morar aqui!’. Só que naquela hora, no aeroporto, a gente pagou 7€.

Agora eu almoço uma versão ainda melhor por €1,80. Recomendo.

(continua…)

Lais

“papai tila a sujela do dedo” com o dedinho esticado pro pai.
Enquanto ele acode eu pergunto “filha, de onde você tirou essa sujeira?”

– Do naliz.

A cara do papai foi impagável, hahahahahahahahaha

O fim de uma era

Eu tenho um pouco de receio em registrar este fato, mas após a última soneca estou confiante. Vou relatar, portanto.

Luiza mamou (assim, no passado) por 2 anos, um mês e 20 e poucos dias. Esse negóz de livre demanda a gente já abandonou faz um bom tempinho. Dias antes de virmos pra Berlim, entretanto, ela resolveu se comportar como um recém nascido e mamar loucamente e absurdamente. O vôo pra cá foi enlouquecedor, ela plugou no meu peito e terminou quando pousamos. Eu só pensava que vida linda deve ter aquela mãe que tava dando mamadeira pro filho na poltrona do lado.

Eu estava exausta.

Sim, amamentar é uma dádiva. Nada se compara aos benefícios para a criança, a OMS recomenda a amamentação até os 2 anos, bla bla bla. Sou defensora do leite materno, sou orgulhosa por ter chegado onde cheguei, tenho muita sorte por ter apoio e por conseguinte não ter desistido.

Mas eu estava exausta.

Daquele vôo até a semana passada passamos por 3 ou 4 resfriados. Por pior que parecessem todos eles saravam completamente em 2 ou 3 dias, acredito que por conta do “mamá”. Tenho uma mocinha que nunca arrancou meu peito pra fora, ou deu escândalo pra mamar fora do horário ou lugar combinado, desde que começamos a ter esses padrões. Tenho um anjinho e tenho sorte.

Sim, mesmo assim eu estava exausta.

Há mais ou menos três semanas eu estive numa conversa com uma amiga e mencionei como eu estava esperando ela se adaptar no Kita e o inverno acabar pra tirar o mamá. A Luiza aparentemente estava brincando com as amiguinhas na minha frente… mas ela ouviu, interpretou e, assim que chegamos em casa, as próximas 12 vezes que eu disse a palavra “Kita” eu recebia a resposta agressiva “EU QUELO MAMÁ!” – com uma cara superbrava.

Eu sentei ela comigo, expliquei que a gente ia pro Kita, mas quando chegasse ia ter mamá, e que a mamãe não ia parar de dar hoje. E pensei: ok, ela vai mamar até os oito anos. Desde então, cada vez que ela pedia pra mamar a noite eu negava uma vez e dava na próxima.

Daí quatro dias atrás ela acordou e mamou. Como sempre. Mamou pra tirar a soneca da tarde. Só que naquele dia ela mamou 3 vezes e não dormiu… Eu simplesmente disse que tinha acabado. Ela disse algumas vezes “eu quelo mamá não”, sendo esse “não” providencialmente adicionado quando ela se lembrava que não tem mais.

Nas últimas noites e sonecas da tarde eu tenho apresentado pra elas as rotinas de soninho que as outras crianças tem: lemos, vimos desenho, cantamos e contamos histórias. Ela adora as histórias. As vezes ela acrescenta um detalhe vindo diretamente da cabecinha dela. Exemplo fofo:

(…)”e ficavam olhando pras estrelas, láaa no céu”… e ela apontando os dedinhos em movimentos circulares pra cima “e a nuuuuuuvens, e a luuuuuua”(…)

Uma falação sem fim compactadas em menos de 10 kg de fofura extrema.

Pra não dizer que ela não pediu mais, nas últimas 3 noites, sempre perto das 5h00, ela resmunga e pede… mas eu falo “lembra que acabou?” e ela já emenda “quelo hitólia, mamãe”. E às 5h00 da manhã, babando de sono eu balbucio “era uma vez” seguido de qualquer outra coisa. Em 50 segundos ela dorme. E isso se repete por 2 ou 3 vezes antes de acordar pra valer.

É o fim de uma era. Ainda não senti falta, se é que sentirei. Por agora só orgulho de nós e a ansiedade pelo fim do despertar desorientado das 5 da manhã.

It's hard to imagine it gets better than this 😍 😍 😍 #LuizaCinelli #16days #smile #love

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Um pedido

No dia do atentado em Berlim estávamos voltando de um supermercado quando soubemos do episódio. Rapidamente entrei no Facebook e vi algumas pessoas que já tinham feito contato preocupados com a gente, mas vi também uma ferramenta fofa pra você se marcar “a salvo”, e assim o fiz. Aos poucos, todo mundo que tenho contato aqui foi fazendo o mesmo.

O local dessa tragédia é a uma estacao da que estive naquela tarde pra ir pro curso de alemão. Dá pra ver um lugar a partir do outro. É bem perto de casa, mas nâo é na minha esquina. E nós só passamos por lá uma única vez, ainda de férias, no verão.

Surgiu na minha cabeça aquela sensação de estar com o perigo por perto, mas eu resgatei a segurança que sinto diariamente caminhando pelas ruas por aqui – coisa eu evitava fazer desde que me mudei pra Brasília em 1998, quando soube de um assassinato de um garoto na quadra vizinha à luz do dia.

Passado o susto, passada a sensação de terror e a lembrança de que há muitas outras vítimas inocentes ao redor do mundo, comecei a fazer orações pelas almas e seus familiares. E, além disso, fui contemplada com a sensação de gratidão. Pela minha vida, pela saúde da minha família, pelo livre arbítrio e por todas as decisões que nos trouxeram até aqui. E, principalmente, pelo entendimento do privilégio que é poder estar onde estamos e tentar fazer algo bonito com isso.

2016 ainda não acabou… tem sido um ano desafiador. Em 2017 que tenhamos sabedoria, empatia, amor e humildade em doses cavalares. E que não nos deixemos rotular, generalizar, odiar ou desistir.

My favorite station #lights #sassy #myneighborhood

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Sejamos fortes.

Paz.

Que rotina?

Nos últimos anos, se você é minimamente ligado no tema já teve acesso a algumas dezenas de artigos que tratam da culpa materna. Há um crescente movimento contra a romantização maternidade e da gestação. Um Viva a estes processos, porque a gente não merece passar a vida achando que é a única mãe imperfeita do mundo.

Aqui, em meio a uma fofura sem fim e meu eterno encantamento pelo desenvolvimento da pequena, eu tenho sofrido diariamente – e excessivamente – pelo fato dela não estar conseguindo entender a rotina. Estamos na seqüência mudança de casa > mudança de país > sol se pondo antes das 16h > dois anos > escola nova (eu já li sobre uma fase de regressão do padrão de sono aos dois anos, me apeguei ao motivo).

Tô careca de saber que passa. Mas tá sendo duro botar ela pra dormir 2-4 vezes por noite, sempre bem depois das benditas 21h, que foi o horário dela literalmente desde o dia que nasceu.

Fico zonza de tensão conforme as horas da soneca da tarde vão passando. Quando ela acorda e vê que está escuro lá fora é um sacrifício fazê-la entender que ainda não é hora de dormir. Junta tudo isso com o apreço ao “eu não quelo” dos últimos dias… É dureza.

Como mencionei no último post, sou boa em relativizar os sentimentos, então tenho me policiado pra tentar suavizar o meu desespero, hahaha. Mas é difícil e, apesar de estar curtindo a temperatura, o aprendizado e cuidando de tudo pro inverno ser mais suave, eu estou contando os dias pro solstício.

Eu parei há alguns anos de encarar a virada do ano como um recomeço, mas saber que a partir do Natal nossos dias voltam a ser maiores me faz desejar 2017 todos os dias.

Continuo a nadar.

Como que faz com a pessoa que não quer acordar depois da soneca NUNCA?

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