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Uooooouooooouoooo

A Luiza não apenas fala umas coisas divertidas, como também tem toda uma linguagem corporal engraçadíssima que eu não consigo registrar nem 1% em vídeo.

Nos atentemos a categoria de quedas forçadas.

Ela era bebê de quase um ano, aprendendo a andar. Quando caía ela deitava no chão como se tivesse o feito de propósito. Às vezes ela nem caía, era só uma desequilibrada, mas ela dava uma exagerada e forjava uma queda pra, por fim, ficar deitada no chão admirando o teto.

Agora, com quase 3 anos, ela tá com uma brincadeira onde começa a se equilibrar num pé só enquanto balança os braços e fala “uoooouoooouooouoooouooo” até ~cair.

A queda forjada tem as mais diversas consequências. Às vezes ela atravessa a casa nesse uooouooouooou – acho que pra escolher onde vai cair – e as vezes ela cai rapidinho mas continua falando “ouch, ouch ouch” enquanto rola pela casa. Quando pára, ela geralmente pede socorro:
– mamãe, eu caí aqui embaixo dessa cortina!! – com uma expressão facial digna dos momentos mais dramáticos de uma novela mexicana.

Hoje de madrugada, eu estava dormindo e acordei com um breve “ooouoou, ouch!” e uma aterrissagem perfeita com a cabecinha no meu ombro. Só não gargalhei porque o meu sono estava pesadíssimo, demorei a processar o ocorrido.

E foi assim que essa noite recebeu o prêmio da melhor invasão de cama dos últimos 2 anos 10 meses, deixando pra trás todos os “eu quero [dormir] na [cama] grande” e suas variantes.

Tava botando o tênis da pequena, percebi um nó e dei uma reclamada: “putz, esse aqui tem um nó”. Ela:
– um nós?
– não, filha, um nó.
– um nossa?
(Eu compenetrada tentando desfazer o bendito – um nó.
– um “noch”? – (significa “ainda” em alemão).
– hahahaha, não, filha, um nózinho.

Luiza, a sabidinha de 2 anos e 9 meses, sendo apresentada, sob pressa contra-produtiva, ao conceito de nó ❤

#luizileaks

2 anos e 9 meses

Ela quer uma história específica mas não acha o livro. Eu digo “aí complica né filha?”. Me responde com as mãozinhas gordas em tom teatral feat. italiano:
“O complicado complica as coisas… porque… as coisas ficam muito complicadas. Ele. O complicado”.
Eu seguro o riso e concordo.
PS: Ela chama o ponto de interrogação de “complicado” porque uma vez ela perguntou o que era e eu falei que isso era complicado.

“Esse do biquíni é de por no mamá da mamãe. Mamãe, quando você fizer três anos você pode por assim” – e põe o sutiã na cabeça.

Hoje estávamos andando no metrô, ela me disse “mamãe, eu te amo”. Ainda ontem eu comentei com uma amiga que ela às vezes diz que me ama só um pouquinho. Essa espontaneidade dá um sabor especial à declaração.

Cada dia que passa a pequena me deixa mais orgulhosa das suas descobertas, mais emocionada pela sua personalidade e mais realizada pela companhia. Ela é um mundo de ensinamentos e me dá um caminhão de trabalho.

Vale cada segundo.

Págens

Luiza um dia começou a chamar as páginas do livro de “págens”. Eu corrigi. Desde então ela fala página pra tudo que tá afim. Se bem conheço minha cria, deve ter uma lógica, mas ainda nao captei.

“Mamãe, essa é a página do metrô”, enquanto anda pela estacão.
“Mamãe olha aqui essa página” vendo o rótulo de um produto.
“essa é a página da piscina” olhando a placa da entrada.

A confusão permanece, porque ela acha que a língua com a qual nos comunicamos se chama Alemanha e se refere ao alemão que ela fala na Kita como Deutsch. Acho justo, mas fico meio perdida se corrijo ou não – principalmente porque já tentei e não adiantou.

Ideias?

Kaputt geworden

Luiza, quase 32 meses, com o bilinguismo batendo forte.

Sobe no sofá e diz “Ich versuche nochmal” (eu tento de novo)
depois de dez tentativas ela quase toma um tombo e fala repetidamente “ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt, ich xxxxxx kaputt!”
Sem entender eu falo:
– Filha, fala em Alemanha – pois ela chama alemão de Deutsch e Português de Alemanha.
– Eu CAPUTEI! (eu capotei)

E mais associações maravilhosas estão por vir… haha

Um sonho

No meio da madrugada a Luíza dá um grito. Eu, de praxe, abraço ela e digo “calma, tá tudo bem”. Aos 2 anos e meio ela, pela primeira vez, desenvolveu o assunto:
– É que o meu copo da Peppa derramou… na piscina… porque a menininha derrubou o meu copo… e o copo fugiu na piscina.
Expliquei que era sonho, que o copo tava na cozinha e que a mamãe e o papai estavam aqui com ela.
– mamãe, tem uma dona aranha
– subindo na parede?
– é… Subindo no meu braço.
– ela deve estar querendo brincar com você.
– porque… ela… fez dodói no meu cotovelo.
– Então a mamãe passa Água Rabelo.
– Tem mosquito no meu pé.
Segurei os pezinhos e falei – pronto. Esse mosquito não faz nada, é só mexer que espanta. Mas filha, a gente está em casa. Você tá sonhando com a piscina. Tá no quarto com a mamãe e o papai.
Silêncio. Pediu água.

Logo depois dormiu de novo.

Maternagem Eterna

Tento fazer do meu blog algo além da maternagem, mas não por acaso tenho sido mãe 24h por dia. E nunca pensei que essa tarefa fosse me pertencer, muito menos ~tomar tanto tempo na minha vida. Porque mesmo quando eu estou estudando, quando estou escrevendo, quando estou passeando, eu sou mamãe. E minha prioridade 1 na vida é ter uma cria saudável; a número dois é tentar ajudá-la a se tornar um adulto forte, de caráter e, acima de tudo, humano.

Depois disso vem aquela parte de diversão, grana, carreira (hahaha) e sei lá mais o quê. Claro que a gente não pausa uma parte da vida pra viver outra, mas é nítido como atualmente tudo gira em torno do bem estar da nossa família.

Pois bem, eu parei de amamentar a Luiza faz uns 2 ou 3 meses, eu não sei ao certo. Não planejei o desmame e acabei não memorizando a data em que ele aconteceu. Desde então eu convivo com muitas mães que ainda amamentam, com filhos – em sua maioria – menores que Luiza, e sempre me vejo tentando falar algo sobre a minha experiência, embora eu tenha convicção de que não necessariamente vai ajudar. Daí entra o meu exercício de empatia e acolhimento – e menos falação.

Mas aqui é meu lugar de falação, hehe.

Não vejo obrigatoriedade da amamentação e agradeço aos céus por ter amamentado a Luiza tanto tempo, mesmo achando que, na minha percepção pessoal, não parece tanto tempo assim. Cada caso é um caso, e o meu por sorte foi muito mais suave do que vejo por aí.

Sim, houveram incontáveis noites em que ela acordava incontáveis vezes. E ela mamava e eu dormia. Em várias ocasiões ela também doriu na própria caminha até 3 ou 4 da manhã, pra depois acordar 5-9 vezes antes das 8h. Eu não fiquei sã o tempo todo, as vezes eu ficava bem cansada. Mas daí eu pensava no quanto ela ia ser bebê por pouco tempo. Eu mesma tô aqui com 33 anos e só mamei até os 3. Depois passei a dar outros tipos de trabalho pra minha mãe 🙂

Agora estamos numa fase super tranquila. O Terrible Two é uma grande piada por aqui, ela chora pra fazer coisas que já estão em curso, mas também para logo. Quer fazer tudo sozinha. Na maioria das vezes eu deixo, e pronto. As vezes ela chora porque não quer que eu escove os dentes dela, mas em 20 segundos ela abre a boca e se contenta em segurar a ponta da escova. Eu tenho um anjinho, ela é um amor, ela passa dias sem chorar, consegue se comunicar muito bem e isso diminui bem sua frustração ; talvez por isso ela chore pouco. Confesso que tentei me preparer pra algo muito pior.

Ela no mundo

Mas como se sabe, cada um sabe a dor e a delícia da sua própria vida, e por aqui eu aprendi a agradecer pelas bênçãos, pelas tretas e entender que tudo é normal. Vai ter dia difícil, vai ter dia mágico e faz parte da vida, então me altero pouco. Imagino que, por uma eventualidade, a vida pode acabar aqui, amanhã, ou daqui a 100 anos, e não quero estar pensando que estava me lamentando. É um exercício pesado no início, mas eu me acostumei e hoje agradeço até pelas chuvas e pelas meias rasgadas.

E em dias terríveis de decepções, mortes, desesperanças políticas, impasses… nada melhor do que ter um amor imenso sorrindo e dando esperanças de que em algum momento estes seres de luz vão fazer o mundo brilhar.

28 meses

A fase do porque chegou aqui. Não a famosa fase de perguntar o porquê das coisas. Luiza agora fala “eu vou pra casa porque eu não vou pra piscina”. “eu quero descer porque eu não quero mais comer”. “ficou escuro porque a piscina tá azul” – a última frase é sobre o letreiro da piscina que fica azul a noite e branco de dia. Aqui do meu lado ela acabou de dizer “O papai vai me levar no Legoland porque eu quero ir no Legoland”. O “porque” não é necessariamente um “porque”.

Ela tem uma memória fotográfica impressionante: reconhece logomarcas de todas as lojas e mercados que frequentamos a partir do primeiro contato, identifica as diferentes linhas do metrô pela cor e o número e conhece quase todas as letras e números. Ela se lembra e menciona detalhes e símbolos de forma que as vezes levamos semanas pra associar.

Há uns 3 dias ela estava brincando com um brinquedo de madeira quando pegou dois triângulos verdes e colocou base com base falando “olha, igual do Brandemburgo!”. Eu fiquei tentando entender. Ontem andando de metrô eu percebi que ela estava falando do botão de abrir a porta do metrô, que tem esse símbolo de duas setas em direções contrárias.

estampa nas janelas do metrô de Berlin
Eu sempre pergunto o que tá desenhado na janela e ela responde “É Bandebugo”

Ela passa pelo U Bahn e fala “O Berlin azul/laranja/amarelo/seja qual for a cor da linha”. Mas se ela passa pelo S Bahn, ela diz “Esse é o trem”.

Nos últimos dias a gente tem percebido que ela está se sentindo piadista. Sempre diz algo e forja uma risadinha com a mãozinha na boca. Uma das piadas foi chegar com as mãos pra trás perguntando “onde tá minha mão?”, e depois mostrar “tá aqui! hihihihihi” <3 E o pique-esconde? "Eu tô escondida!!", e eu respondo algo como será que a Luiza tá na cozinha? e ela grita “Naaaaaao, eu tô na cortina!!”.

E ela se envolve nos assuntos alheios: estávamos falando sobre um currículo que Fabricio precisava imprimir e ela veio imediatamente dizendo “mamãe, eu quero um currico!”

Sao milhares de palavras por minuto, muitas risadas todos os dias e muito cuidado com o que mais essa criaturinha vai absorver sem a nossa supervisão, rs.

Renovação

Passamos alguns dias sem post com a visita do tio Dindo da Luiza aqui em Berlin. Tenho muito orgulho de ver como o tempo passa e a pequena nutre o amor pelos familiares apesar da distância, e entende como precisa aproveitar a presença, pois estão nos visitando – ou seja, vão voltar pro Brasil em breve.

Isso significa que ela passa os dias com um excelente humor, distribui abraços, sorrisos, faz graça e no fim se despede sem choro, com abraço forte e muito carinho. A gente acha que ela tem uma tristezinha nos dias que se seguem, que acaba sendo demonstrada com dificuldade de sono e um pouquinho de choro, mas ela não questiona a condição de estarmos aqui e eles não.

Eu acho que já mencionei isso aqui (to com vestígio de enxaqueca e muita preguiça pra me certificar, sorry), mas acredito que a Luiza crescendo com acesso a duas línguas e meia, tendo uma cultura dentro de casa e outra na rua, com horas de Skype, visitas e amor, vai ter uma construção diferente da nossa quando se trata de saudade e distância.

Eu assimilei que as vezes estamos próximos das pessoas fisicamente, mas o coração tá distante… e vice-versa. Porém eu assimilei isso com quase 30 anos, já ela tem 2 e é assim que tento ensinar. Fico feliz quando ela, espontaneamente, no meio da nossa oração, agradece pela casa nova, pelo metrô de Berlin, pela neve e pelos avós e tios. São indícios de que ela ama tudo que a cerca por aqui, e tudo que deixamos lá.

Recentemente fui buscá-la no Kita e ela pediu pra dar um abraço numa das cuidadoras antes de ir. O abraço levou tanto tempo pra terminar que fiquei levemente constrangida, mas a Soledad (sim, ela é chilena e muito amorosa!!) parecia estar curtindo aquele abração sem fim tanto quanto a Luiza… O constrangimento virou orgulho e gratidão.

Receber gente que amamos na nossa casa, no país que escolhemos e nos escolheu, é revigorante e acalentador. Continuamos lutando pelo nosso espacinho aqui, pela integração, conhecendo mais gente, mais lugares e felizes e pelo que vem acontecendo no nosso percurso.

Danke, Deutschland!

Lais

“papai tila a sujela do dedo” com o dedinho esticado pro pai.
Enquanto ele acode eu pergunto “filha, de onde você tirou essa sujeira?”

– Do naliz.

A cara do papai foi impagável, hahahahahahahahaha