Pedro Voa Souto

Eu não convivi com Pedro. Embora ele tenha almoçado na minha casa, tenha tocado por um curto período com meu marido, eu estava numa fase conturbada, delicada e não consegui interagir com ele. Porém testemunhei a admiração enorme que Fabricio tinha por aquele garoto.

Um monstro em talento, uma enciclopédia do rock (deixando nossas enciclopédias favoritas boquiabertas), um sorriso doce. Quando ele me foi apresentado eu não acreditei que aquele menino era tudo aquilo que ouvia dizer, não o associei às histórias que ouvi, levei uns 20 minutos depois do encontro pra entender que aquele Pedro era “o” Pedro. Era 2011 ou 2012, não sei com exatidão, mas ele era ainda mais jovem, com cara de criança mesmo, rs.

Os anos se passaram, e como a maternidade veio eu perdi o fio da meada no rock. Mas via os vídeos no Facebook, acompanho à distância a genialidade dos garotos brasilenses fazendo jus ao rótulo da cidade de “berço do rock”. É de uma energia incrível, a forma como a cultura vem se desenvolvendo – independente, forte, psicodélica, inspirada e louca.

foto de Artur Dias

E Pedro representa essa energia, com um grande peso em carisma, amabilidade e o puta talento (com o perdão do palavrão pela falta de um termo maior). Ele estava lá. Não está mais – não neste palco, não neste plano.

Eu creio nos planos divinos, acredito que não há acaso e que jovens que fazem a passagem “cedo” cumpriram seu papel. Mas isso não me impediu de estar abalada. Uso todos os argumentos possíveis pra tentar acalmar meu marido, mas enquanto falo o que penso meu coração chora junto.

Me vem flashes dos amigos sorridentes, falando do Pedro com um amor e admiração profundos, dos vídeos de assisti há menos de um mês da banda em que ele tocava e me engasgo. Quando soube que ele estava mal eu jamais acreditei que este seria o desfecho.

Tenho raiva por ter aprendido a sofrer com a morte. Acredito que é uma passagem, que pra morrer basta estar vivo. Se houvesse distinção de idade, caráter e talento o Pedro estaria aqui.

Aos amigos em comum, aos familiares dele … que o tempo conforte seus corações. E que ele esteja em paz. Aqui em casa seguimos em luto, porém seguindo.

Natgeo Berlim

Numa manhã comum, fomos levar a pequenina de bike pro KiTa. Fomos os dois, pois no sistema deles a cada semana uma das crianças leva o café da manhã, portanto a cada 10 semanas somos nós. Fui, então, levando as compras e Fabrício foi levando a pequena.

Saindo de lá, flagramos um Corvo atacando, matando, depenando e comendo um pardal. Anteontem eu tinha visto um outro corvo comendo um pombo que estava recém morto e pra mim foi suficientemente perturbador. O de ontem foi um pouco mais intenso.

Em seguida, voltando pra casa, passamos em frente a um parque no quarteirão de baixo e vi uma raposa. Gritei pro Fabricio olhar e, não sei se por isso ou pelo movimento das bicicletas, ela recuou e ficou olhando a gente passar.

Voltei pra casa quase tão eufórica quanto a vez que estava em Pipa vi um golfinho pelo qual eu não estava procurando nem esperando, hahaha. Quase esqueci aquele corvo…

É muita emoção na vida do imigrante, e tudo antes das 9h00.

Natgeo Berlin

E a aventura continua.

PS: uma vez eu vi um carcará atacando um joao de barro e destruindo a casinha pra alcançá-lo. Também não achei bonito.

28 meses

A fase do porque chegou aqui. Não a famosa fase de perguntar o porquê das coisas. Luiza agora fala “eu vou pra casa porque eu não vou pra piscina”. “eu quero descer porque eu não quero mais comer”. “ficou escuro porque a piscina tá azul” – a última frase é sobre o letreiro da piscina que fica azul a noite e branco de dia. Aqui do meu lado ela acabou de dizer “O papai vai me levar no Legoland porque eu quero ir no Legoland”. O “porque” não é necessariamente um “porque”.

Ela tem uma memória fotográfica impressionante: reconhece logomarcas de todas as lojas e mercados que frequentamos a partir do primeiro contato, identifica as diferentes linhas do metrô pela cor e o número e conhece quase todas as letras e números. Ela se lembra e menciona detalhes e símbolos de forma que as vezes levamos semanas pra associar.

Há uns 3 dias ela estava brincando com um brinquedo de madeira quando pegou dois triângulos verdes e colocou base com base falando “olha, igual do Brandemburgo!”. Eu fiquei tentando entender. Ontem andando de metrô eu percebi que ela estava falando do botão de abrir a porta do metrô, que tem esse símbolo de duas setas em direções contrárias.

estampa nas janelas do metrô de Berlin
Eu sempre pergunto o que tá desenhado na janela e ela responde “É Bandebugo”

Ela passa pelo U Bahn e fala “O Berlin azul/laranja/amarelo/seja qual for a cor da linha”. Mas se ela passa pelo S Bahn, ela diz “Esse é o trem”.

Nos últimos dias a gente tem percebido que ela está se sentindo piadista. Sempre diz algo e forja uma risadinha com a mãozinha na boca. Uma das piadas foi chegar com as mãos pra trás perguntando “onde tá minha mão?”, e depois mostrar “tá aqui! hihihihihi” <3 E o pique-esconde? "Eu tô escondida!!", e eu respondo algo como será que a Luiza tá na cozinha? e ela grita “Naaaaaao, eu tô na cortina!!”.

E ela se envolve nos assuntos alheios: estávamos falando sobre um currículo que Fabricio precisava imprimir e ela veio imediatamente dizendo “mamãe, eu quero um currico!”

Sao milhares de palavras por minuto, muitas risadas todos os dias e muito cuidado com o que mais essa criaturinha vai absorver sem a nossa supervisão, rs.

Renovação

Passamos alguns dias sem post com a visita do tio Dindo da Luiza aqui em Berlin. Tenho muito orgulho de ver como o tempo passa e a pequena nutre o amor pelos familiares apesar da distância, e entende como precisa aproveitar a presença, pois estão nos visitando – ou seja, vão voltar pro Brasil em breve.

Isso significa que ela passa os dias com um excelente humor, distribui abraços, sorrisos, faz graça e no fim se despede sem choro, com abraço forte e muito carinho. A gente acha que ela tem uma tristezinha nos dias que se seguem, que acaba sendo demonstrada com dificuldade de sono e um pouquinho de choro, mas ela não questiona a condição de estarmos aqui e eles não.

Eu acho que já mencionei isso aqui (to com vestígio de enxaqueca e muita preguiça pra me certificar, sorry), mas acredito que a Luiza crescendo com acesso a duas línguas e meia, tendo uma cultura dentro de casa e outra na rua, com horas de Skype, visitas e amor, vai ter uma construção diferente da nossa quando se trata de saudade e distância.

Eu assimilei que as vezes estamos próximos das pessoas fisicamente, mas o coração tá distante… e vice-versa. Porém eu assimilei isso com quase 30 anos, já ela tem 2 e é assim que tento ensinar. Fico feliz quando ela, espontaneamente, no meio da nossa oração, agradece pela casa nova, pelo metrô de Berlin, pela neve e pelos avós e tios. São indícios de que ela ama tudo que a cerca por aqui, e tudo que deixamos lá.

Recentemente fui buscá-la no Kita e ela pediu pra dar um abraço numa das cuidadoras antes de ir. O abraço levou tanto tempo pra terminar que fiquei levemente constrangida, mas a Soledad (sim, ela é chilena e muito amorosa!!) parecia estar curtindo aquele abração sem fim tanto quanto a Luiza… O constrangimento virou orgulho e gratidão.

Receber gente que amamos na nossa casa, no país que escolhemos e nos escolheu, é revigorante e acalentador. Continuamos lutando pelo nosso espacinho aqui, pela integração, conhecendo mais gente, mais lugares e felizes e pelo que vem acontecendo no nosso percurso.

Danke, Deutschland!

Eis

Essa semana eu tive prova do curso de alemão. Tô basicamente na metade do que seria o nível básico de alemão.
Minha maior satisfação foi saber tudo o que estava sendo dito na prova inteira e entender as questões. O bônus foi ver os colegas que eu acho que falam muito melhor do que eu me pedindo cola, hahahaha.

Eu percebi que realmente tenho uma afinidade com a gramática, pelo menos no nível básico que tenho sido apresentada. Os fonemas estão se tornando mais familiares, porém preciso ainda de muitas horas diárias pra criar a memória auditiva. O fato de sermos uma família brasileira é maravilhoso em mil aspectos, principalmente pela certeza de que Luiza jamais perderá o português que ela exercita com a gente. Mas passo 90% do tempo vivendo em Português, e isso “atrasa” o desenvolvimento da terceira língua.

Não posso dizer, porém, que não estou satisfeita. Hoje eu me vi na mesma sorveteria que estive há 6 meses. Da primeira vez eu não fazia a menor idéia do que eram os nomes dos sabores e a minha amiga precisou pedir pra gente. Hoje eu entrei, na fila captei algumas conversas, ri do vendedor brincando com as crianças, compreendi os sabores, escolhi, pedi certinho, educada, respondi as perguntinhas básicas do atendimento (tipo copo ou casquinha!) e me despedi agradecendo aos céus por saber como as coisas mudam.

Além disso, tenho me percebido uma fã incondicional do meu quarteirão e seus arredores. A sorveteria natureba, a cafeteria famosa, os restaurantes deliciosos, os bolos do café da esquina, o visual do restaurante/livraria, as galerias de arte, a padoca de 130 anos… E morro de emoção quando reconheço alguém com quem já troquei um bom dia ou pedi uma informação andando aqui no bairro. É muito bom se sentir em casa poucos meses após mudar de continente.

Talvez seja pela minha cerveja favorita, talvez pelo queijo divino que comprei na promoção por menos de 2$ ali no mercado. Talvez seja pelo sol que saiu hoje e deu um sample de primavera, pela visita do cunhado ou porque mamãe e irmã jajá estão chegando também pra visitar… O mais provável é que, pela soma de tudo e por um tanto mais que tem acontecido: estou feliz como há muito não me sentia.

Ich freue mich auf die Zukunft.

Sobre dias de sol #eis #Schöneberg #berlin #berlinexpats

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A série

Eu tenho uma série mental de coisas que me lembram o quanto eu amo/devo agradecer por estar aqui.

Resolvi registrar. Pra começar, já pedindo perdão aos vegetarianos:

Currywurst.

Currywurst
Currywurst

Por que?

Por muitos anos eu dizia que cachorro quente era minha comida preferida. Enjoei faz tempo, mas eu sempre senti falta do salsichão que eu comia na AABB quando era micro criança em Belo Horizonte. Na época eu comia com mostarda. (aliás, as mostardas daqui tão na minha lista também)

Passei uns anos frustrada procurando salsichão nas barracas de churrasquinho de festa junina. Me lembro de algumas situações específicas de pedir salsichão olhando o cardápio e o tio dizer que não tinha. Ano passado na fila da barraquinha de churrasquinho tivemos um papo sobre isso com um estranho, também frustrado pela falta da iguaria. A dona do lugar/churrasqueira disse que há anos não via pra comprar, por isso nem pensou em levar.

Daí eu chego em Berlim no verão de 2016, e a primeira coisa que a gente come – ainda no aeroporto – pra trocar o $ do ticket do metrô: Currywurst mit Pommes. Gente, é salsicha com ketchup, curry e batatinha frita. E eu, que nunca na vida comi ketchup, amei.

Minha amiga que estava comigo na ocasião disse que era típico aqui, que tinha em toda esquina, e eu pensei ‘ok, então eu posso morar aqui!’. Só que naquela hora, no aeroporto, a gente pagou 7€.

Agora eu almoço uma versão ainda melhor por €1,80. Recomendo.

(continua…)

Lais

“papai tila a sujela do dedo” com o dedinho esticado pro pai.
Enquanto ele acode eu pergunto “filha, de onde você tirou essa sujeira?”

– Do naliz.

A cara do papai foi impagável, hahahahahahahahaha

Cor-de-rosa

Eu nunca fui do time cor de rosa. Eu gostava de azul e de vermelho. Depois só de vermelho. Depois de amarelo. Não fui impressionada pelas princesas nem por nada mais da Disney. Tive minha filha no meio da primavera feminista, o que me deixou ainda mais atenta a como/quando/porque expor à minha filha essas miudezas. Então eu sempre fiz questão de ter coisas de todas as cores e apresentar todas as coisas, sem imposição de gênero.

Somados à isso, eu tenho uma política de sempre dar à Luiza duas ou no máximo três opções, e com essa limitação tento ensinar que ela tem uma liberdade, mas dentro do que é oferecido por nós (A.K.A. necessário). A estratégia serve em qualquer âmbito: quer comer banana ou mingau? Quer vestir o casaco azul ou o roxo? Quer escovar os dentes com a escova de galinha ou do macaco? Quer ir de mãos dadas ou no colo? Não há opção de não executar a ação. E se ela resiste eu explico que algumas coisas a gente faz sem gostar mesmo, emendando uma historinha de porque é preciso fazer aquilo.

E hoje… um dia comum, mas provavelmente uma das últimas vezes que eu levo a Luiza de carrinho até o Kita – porque o papai vai passar a levá-la de bike. Aproveitei que vi um pai passando de bicicleta com o filho na mesma situação, eu disse pra Luiza: “olha lá filha, é assim que você vai amanhã pro Kita”, e no intuito de falar sobre o capacete que ela vai precisar usar eu continuei:

– E tá vendo aquele chapéu verde que o menininho está usando?
– Chama capacete, mamãe!
(hahahaha)
– É o que, filha?
– Capacete!
– Ah, que bom que você conhece o capacete! Então, o papai vai te levar na loja pra você escolher um pra você.
– Pode ser Rosa, mamãe?
– Claro, meu amor. Pode ser rosa, pode ser amarelo, pode ser azul, pode ser de jacaré, de Bob Esponja, de Hello Kitty…
– O da Luiza é rosa.

Daí a mãe engole o choro e começa a rir. Pode ser rosa sim, com sorte não vamos ter na loja uma opção de um rosa que *EU* ache muito feio.

E, a julgar pela nossa experiência, é praticamente impossível que a Luiza mude de idéia.

EDIT: animais (zebra e pato inclusos) > cor de rosa. Obrigada, Universo!

"Mamãe, eu gostei de andar na neve!"

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Capacete infantil cor de rosa para ciclismo
O meu é rosa

das Abenteuer

Há meses tentando um post self centred. Não consigo. Embora eu faça um super esforço pra valorizar a minha individualidade eu estou descobrindo que ela é utópica. A pessoa passa 30 anos pra se entender, e quando finalmente tá fazendo um bom trabalho vem a gravidez, a filha, a inversão de tudo e mil sentimentos que não tinham nome começam a fazer parte do dia a dia.

Eu me vejo na Luiza e tenho lembranças de situações que eram completamente reprimidas ao vê-la fazer coisas que se assemelham à minha visão de mundo quando criança. Ao mesmo tempo eu vejo, nas minhas ações, muito do meu pai e várias coisas da minha mãe. Vou lá, faço e a lembrança vem. Eu sou um elo entre meus pais e minha filha, rodeada de inputs malucos advindos de uma aventura que eu escolhi viver.

Não tô falando só da aventura alemã (que é uma wichtig Abenteuer), mas dessa vida inteira. Das escolhas que fazemos a cada passo dado e como lidamos com as consequências trazidas pelo percurso. Eu escolhi ser otimista, ou aprendi a ser otimista, não sei ao certo. Sou boba-alegre, fico encantada por pouca coisa e como sempre digo: me divirto muito com muito pouco.

né?
né?

A verdade é que o pouco pode ser muito quando a sensação é de que você carregou um peso grande por anos a fio. Tudo parecia turvo, trabalhoso, tortuoso. Com o tempo você aprende a colocar os problemas em uma escala aceitável ao seu sistema nervoso, vai moldando as formas de receber o que te machuca/preocupa e vai amenizando as reações negativas… até chegar um ponto em que a tristeza é acolhida, assimilada e depois superada. Aceitei que as coisas vem e vão.

E nesse redimensionamento eu coloquei a individualidade (ou individualismo?) num patamar quase bobo. Sim, é saudável você saber das suas coisas, suas prioridades, sua vida. Mas a gente tem que saber acolher, ter senso de coletividade e resgatar a compaixão. Eu eu espero conseguir viver isso sem deixar de me divertir. Do contrário, qual seria o sentido da vida? No mínimo a gente precisa ser feliz na vida que nossos pais, a ciência, o cosmos e Deus nos deram.

PS: levei 10 minutos pra escrever o texto todo e outros 5 pra lembrar como conjugava o verbo “dar” na última frase. Em Português. Tá feia a coisa.

Birra 3/2017

Nota de quando a sagitariana de quase 26 meses (que desmamou há 5 dias) pede mamá depois do almoço, quando é normalmente a hora da soneca.
Lembrei a ela que acabou. Ela não disse nada. Comemos mais, depois deitei com ela. Eu contei história, ela continuou inquieta e pediu leite. Nós levantamos, vimos desenho, ela quis ficar sozinha e de pé, larguei lá, fiquei vendo de longe os olhinhos relutantes e baixos de sono. Deitou, resmungou… mas não pediu nada. Pouco antes das 16:00 (3 horas de “atraso” do sono) ela disse que queria sair, mas não queria por roupa. Daí pediu mingau. Eu fiz o mingau e ela começou um choro nível 10, inconsolável, falando que não queria. Choro e urro, nervosismo extremo. Depois de mais de 20 min comigo oscilando entre o desespero e a ignorância em meio aos berros eu a peguei no colo pela décima vez e falei: “OK vamos sair”. Ela se acalmou, “quelo saí”. E os olhinhos fecharam. “Filha, você não quer sair, você tá com sono, precisa dormir”. Gritos de novo. “OK, vamos sair. Vamos sair…(sussurrando)… A gente vai sair de carrinho. Vamos sair… Vamos sair…”
Foto do resultado.

no colo
Exaustão