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Birra 3/2017

Nota de quando a sagitariana de quase 26 meses (que desmamou há 5 dias) pede mamá depois do almoço, quando é normalmente a hora da soneca.
Lembrei a ela que acabou. Ela não disse nada. Comemos mais, depois deitei com ela. Eu contei história, ela continuou inquieta e pediu leite. Nós levantamos, vimos desenho, ela quis ficar sozinha e de pé, larguei lá, fiquei vendo de longe os olhinhos relutantes e baixos de sono. Deitou, resmungou… mas não pediu nada. Pouco antes das 16:00 (3 horas de “atraso” do sono) ela disse que queria sair, mas não queria por roupa. Daí pediu mingau. Eu fiz o mingau e ela começou um choro nível 10, inconsolável, falando que não queria. Choro e urro, nervosismo extremo. Depois de mais de 20 min comigo oscilando entre o desespero e a ignorância em meio aos berros eu a peguei no colo pela décima vez e falei: “OK vamos sair”. Ela se acalmou, “quelo saí”. E os olhinhos fecharam. “Filha, você não quer sair, você tá com sono, precisa dormir”. Gritos de novo. “OK, vamos sair. Vamos sair…(sussurrando)… A gente vai sair de carrinho. Vamos sair… Vamos sair…”
Foto do resultado.

no colo
Exaustão

Deutsch lernen

Quem disse que a vida é curta pra aprender alemão talvez não tivesse um propósito que o estimulasse o suficiente. É uma língua doida com umas regras gramaticais de lascar, mas eu juro pra vocês que é possível. Eu ainda não falo nada, fico que nem uma bobona fazendo mímica quando preciso falar alguma coisa pra alguém. Mas a audição tá identificando as palavras, a leitura não assusta tanto e hoje eu consigo dar risada da minha incapacidade em falar algumas coisas que hoje não me parecem tão impossíveis.

É difícil, é caro, dá dor de cabeça, você se pergunta POR QUÊ, SENHORA DEOZA? mas a coisa anda. Além disso tem seus encantamentos. É super fonética e o vocabulário é extremamente lógico.

Pode ser meu excesso de otimismo… mas diz aí se não fica mais fácil viver assim? Essa semana eu usei o google tradutor pra mandar 3 emails, mas tentando fazer de uma forma bem simples, usando os tempos verbais que já aprendi e o máximo de vocábulos que já conheço, pois assim facilita que eu consiga compreender/aprender o que eu tô emitindo. Em uma das ocasiões a pessoa elogiou o meu alemão (mal sabe ela que é o do Google), hahaha.

Note to self: v se pronuncia f, ch se pronuncia r, l é aquele l que tem que bater a ponta da língua nos dentes superiores dianteiros, não rola de falar como se fosse o u.

E persistência.

Dois lados de uma mesma moeda

PRIMEIRO ATO

Ontem fomos ao Jungenamt atrás do Kita Gutschein pra podermos colocar Luiza no KiTa.

(Viram como eu disse ali umas palavras que só fazem sentido aqui? Pois é, essa é minha esperança. Eu vou aprender alemão, aguarde e confie)

O Jungenamt é o nosso juizado de menores e, ao contrário do Brasil, pra matricular um filho na escolinha (Kita) devemos ter uma “autorização” – literalmente um voucher (Gutschein) – dizendo por quantas horas você pode deixá-lo lá. Posso estar perdendo alguns pontos da explicação, mas basicamente é isso.

Daí uma amiga me ajudou preenchendo os documentos online e eu reuni todos os dados necessários (registro de residência na cidade, cópias de passaporte e matrícula no curso de alemão – ainda faltou o documento que comprova o trabalho do Fabricio). Sim, amigos, estamos num país extremamente burocrático. A diferença é que aqui a burocracia não é redundante, ela é extensa porém direta.

Enfim, depois de um grande esforço pra entender onde era o local onde eu deveria entregar a documentação, jogamos o endereço no Google Maps nosso mais fiel escudeiro e tomamos dois ônibus até lá. Chegamos cerca de 20 min antes do fim do horário de atendimento. No primeiro ponto eu perguntei se podia falar inglês, o rapaz me respondeu que não – em alemão, claro. Apontei pro documento que eu tinha em mãos e ele me respondeu em inglês pra eu ir até o Infopoint.

Sim, eles me parecem confusos às vezes.

No Infopoint, que era bem na porta desse prédio gigante e lindo – que eu me arrependo no momento por não ter fotografado, mas o farei em breve – eu fiquei esperando até que algum dos dois pontos de atendimento vagassem. Porque já aprendi aqui que você aborda o atendente, e não o contrário.

Neste momento, meus amigos, algo muito emocionante me aconteceu: eu proferi meia dúzia de palavras em alemão e… ELA ME ENTENDEU! (inserir fogos de artifício aqui) Eu tive muito orgulho de mim por ter conseguido me comunicar. Mas obviamente não entendi praticamente nada do que ela me disse. Só post e haus, logo eu soube que me mandariam o que quer que fosse pelo correio. Claro, fiquei insegura e pedi minha amiga pra perguntar se era isso mesmo pelo áudio do whatsapp, que eu mostrei pra tia e mandei outro de volta com a resposta pra ela me confirmar.

Resultado: funcionou. Preciso voltar lá pra terminar de entregar a documentação, mas o processo está encaminhado.

SEGUNDO ATO

No Kita, preenchendo o papel de requerimento de vaga (sim, porque não basta o voucher, você ainda luta até conseguir uma vaga).

Atendente: Endereço?
Cintia: Merseburger strasse
A: Bitte?
C: Merseburger strasse
A: Sorry, I don’t get it.
C: Merseburger strasse. Let me show you (e abro o Google Maps mostrando o nome da rua)
A: Ah, ok. Merseburger strasse.
C: Como vocês pronunciam em alemão?
A: Merseburger strasse.
(este diálogo aconteceu em inglês)

Eu juro que falei a mesma coisa que ouvi. Juro. Ela só disse mais devagar. Tem alguma coisa muito errada.

Sim, às vezes eu pareço confusa pra eles.

E a aventura continua.

Expat – Etapa 12/199 check.

Eu sempre ouço “mas o que você vai fazer em Berlim?” e suas variações. Normalmente de pessoas que querem sair do Brasil – talvez pelo cenário econômico atual, talvez por fuga emocional e talvez porque gostam de se aventurar. Eu acredito que só fomos capazes de zipar as malas e partir quando a fuga emocional não fazia parte do contexto.

De resto, o cenário econômico e político brasileiro realmente vinha nos cansando. O daqui, porém, também tem suas mazelas – acreditem. Mas o maior e melhor de todos os motivos é a aventura de se começar um novo capítulo na vida cheio de desafios, acompanhados da pequena pessoa que nos encoraja diariamente, e que em muito breve será bilíngue.

A apaixonante Berlim
A apaixonante Berlim

Ontem conhecemos o Mark, nosso gerente do banco. Eu não saberia soletrar o nome dele, de família polonesa. Mark é jovem, pensa rápido, faz piadas espertas, acha o sistema do banco meio bobo, perde break do almoço sorrindo, dizendo que gosta do seu trabalho e que vai atender uma senhora polonesa – que está feliz em ser atendida na sua língua mãe – em breve.

Eu digo: que bom, você consegue fazer o seguro X pra ela, fica bom pras duas partes: e ele menciona que o salário dele não é vinculado às vendas dos seguros, mas sim, ele os oferece com o mesmo afinco aos que estão por ali.

Na nossa visita ao banco o gerente se demonstrou dedicado às nossas questões, resolveu tudo prontamente, contou quanto ganha, quanto paga de aluguel, sugeriu um site pra achar apartamento quando precisarmos nos mudar, contou que fala 5 línguas (explicou que francês, inglês, polonês e alemão vieram da infância) e que está querendo aprender mandarim e eventualmente espanhol. Ele também disse que vai aplicar pra um trabalho num grande banco chinês quando se formar na faculdade que está fazendo agora, fez uma piada sobre a chefe dele estar indo pra casa e disse que queria estar dormindo feito a Luiza naquele momento. Não, ele não queria. Ele está feliz fazendo um ótimo trabalho.

Precisamos dizer que foi a ida ao banco mais eficiente das nossas vidas? Não foi chato, pelo contrário. E me impressionou – mais do que as 5 línguas que o rapaz fala – a naturalidade com a qual ele menciona seus planos de sair dali sem perder a eficiência do atendimento, destoando completamente de qualquer discurso que já tivemos em bancos no Brasil.

Mais uma vez, acabamos de chegar, meu “relacionamento” com o banco acaba de começar, e muita água ainda vai rolar por debaixo dessa ponte, mas a princípio a nossa primeira escolha de banco foi encantadora. Além disso, só me resta pedir aos céus que me ajude a ter um quinto da capacidade de assimilação de línguas desse rapaz e que meu cérebro absorva a língua local o quanto antes, haha.

Em breve teremos histórias sobre as aulas de alemão. Me aguardem.

Amamentação Prolongada

Quando estava grávida eu entendia que o hábito da mamadeira seria necessário na minha rotina. Meu trabalho não poderia parar: eu passei a vida adulta inteira (até o momento) me entendendo melhor como profissional do que como serumano. É minha terapia, onde faço a minha energia fluir e girar, me sinto útil, me adequo e cresço de forma gratificante.

Eu havia comprado mamadeiras maravilhosas anti refluxo, de vidro, super resistentes e bem recomendadas. Quando ela nasceu eu tirava 10-15 ml do meu leite e colocava na mamadeira pro pai dar pra ela. Foram 3 ou 4 vezes, até que um dia ele passou pro time de (inúmeras) pessoas que nos dizia pra não oferecer mamadeira. Foi tenso. Foi triste quando eu fui trabalhar quando Luiza tinha 4-5 meses de vida e ela não sabia usar/não queria a mamadeira com meu leite. Não queria meu leite congelado, nem fresco, nem no copo, nem na colher.

Entre os 4 e os 7 meses da Luiza eu sofria em todas as pesagens. O pediatra pediu que eu tentasse dar o leite artificial enquanto eu doava leite pro banco; muito leite. E Luiza se interessava cada vez mais pelo mundo, mamava apenas o suficiente, não ganhava peso como o padrão determinava enquanto eu doava e me remoía por… por tudo? Acho que por tudo.

Com o tempo eu passei a me forçar a entender que Luiza é Luiza, e não necessariamente é o bebê modelo do ganho de peso e dos hábitos alimentares. Eu li muitos artigos e opiniões de especialistas da amamentação, autores de todo o mundo. Com 10 meses, durante uma viagem ao RJ, ela passou 2 dias sem comer, mas mamando. Achei, na ocasião, duas leituras que me apaziguaram: diziam que o bebê amamentado pelo leite materno tem garantidos todos os nutrientes necessários até seus 18 meses. Ou mais, ou menos, pois cada bebê é único.

Eu entendi que minha função como mãe é oferecer o almoço, as frutas, o café da manhã, apresentar os alimentos. Comê-los ou não cabe somente à ela, felizmente ou não.

Pensei em amamentar até um ano. Luiza fez um ano no dia 30/11/15 e dois dias depois começaram a nascer seus primeiros dentes. E ela, que estava começando a comer melhor, desandou. “Só mais um pouco”, pensei. Com 15 meses Luiza se despediu da babá que cuidou dela desde os 4 meses. Com 16 meses foi pra escolinha. Com 17 meses mudou de casa. “Ela não merece lidar com a ‘perda’ do mamá concomitante a tudo isso”, pensei.

Aqui estamos, 18 meses de amamentação. Não é mais uma livre demanda, há tempos ela só tem por hábito o mamá da noite. Normalmente se ela pede fora do “horário” eu mudo o foco, ofereço água, ofereço comida. Se for sono nenhuma das opções serve, e ela mama alguns minutos até adormecer.

De repente um dente mais chatinho, um resfriado, e me vejo faltando o trabalho – uma das únicas vezes na vida – pelo fato de ter uma pequena febril, chamando mamãe e mamando interruptamente. Por fome, sede, alívio, carência, manha, pertencimento e amor. Passei o dia com ela, com poucos instantes perto do computador pra resolver o que não podia esperar.

A impaciência dá espaço a uma imensa gratidão por ainda ter esse privilégio de amamentar. A sensação de que a pequena continua pequena, mas que em breve não o será. Meu amor é dela, meu colo é dela, minhas intenções são pra ela. A amamentação é um trabalho árduo, exige paciência, tem picos de estresse e pode ser, dentro de toda a minha experiência de vida, o meu trabalho mais gratificante – até o momento.

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Planos e Tombos

Minha vida se faz de planos e tombos. De novos tombos, de novos planos e flores emaranhadas em pedras pelo caminho.

Planejo mais do que vejo por aí, sou viciada em analisar cenários, processos e resultados por mais pessoais e informais que pareçam. Óbvio, de certa forma – analisando os casos passados – existem tombos e mais tombos, dos mais diversos, diariamente na minha rotina. Quanto mais plano, mais coisa fora do esperado.

Aaaaaah, a rotina… E meu amor platônico por essa danada. Adoro números, horários, previsões e planilhas. E aparentemente fiz escolhas que me desafiariam brutalmente, me fazendo querer pegar todo esse mundão desorganizado e dobrar pra caber em caixinhas de tamanho médio, cores harmônicas, e deixá-las etiquetadas com a data escrita em um formato padrão, pré determinado.

Daí escolhi ser publicitária, a contragosto dos professores de exatas. Depois caí no mundo dos eventos, e haja jogo de cintura pra lidar com tanto imprevisto. Depois me encontrei como executiva comercial, com uma agenda colorida marcando as metas do dia da semana, que eventualmente trocariam todas de posição, estrategicamente reorientadas, diariamente. Quanto amor deixei por onde passei, quanta frustração transformei em aprendizado, quanta gente querida no meu caminho… Flores e pedras. Tombos e planos. E ajustes. 

Me perguntei onde me perdi e descobri que bastava um novo tombo (ou mais) pra me reinventar, e achar o mesmo pique, traduzido em outros planos, em outros planos.

Lá vou eu de novo 🙂 

 

Pelo Amanhã.

Num dia em que tudo pareceu mais duro – com mamãe hospitalizada, projetos importantes saindo escopo, sorriso difícil, horas pesadas – não achei digno chorar… embora tenha passado boa parte do tempo segurando as lágrimas.

A maior vitória é chegar no fim desse dia e conseguir perceber motivos pra agradecer, respirar fundo buscando a vitalidade que hoje não apareceu e sabendo que as complicações de agora são o maior estímulo pra buscar a melhor solução amanhã.

Não dispersar a energia, manter foco, força e fé. Veja bem: não desperdiçar energia, que a demanda tá alta.

Hoje depois de horas tentado entender onde estava minha capa de super heroína, minhas piadas e minha tão batalhada leveza, parei pra pensar. Recebi carinho gratuito de gente linda.

Deus me deu amigos que são capazes de me dar verdadeiras injeções de ânimo com poucas palavras. Gente que me inspira e me faz parecer importante ❤️

Um grande viva ao amanhã! Levemente contido, porque vamos precisar dessa energia jajá.