Tijolinho por tijolinho

Quando eu era criança eu sonhava em ter uma casa com escada e cachorro. Quando casei com ele eu tive. Quando era adolescente eu dizia que se tivesse filho eu ia querer um sagitariano. Com ele eu tive.

Quando eu me entendi por gente eu dizia que queria morar em Paris. Ele me levou pra lá, passeamos de bateau no rio Sena e subimos a torre Eiffel – de escada – pra vermos a cidade luz do alto, num fim de tarde incrivelmente lindo. 

Eu sonhava em morar fora do Brasil e trazer uma miscelânea de culturas pra minha casa, com ele eu vim. 

Eu não tinha certeza se queria ser mãe, com ele eu quis. Ele me deu a possibilidade de estar vivendo a experiência mais intensa da minha vida, criando essa mini figura a quatro mãos: regadas de suor, confiança e orgulho.

Eu cresci cheia de certezas e controladora, ele faz a egípcia pras minhas orientações e discorda dos meus critérios, até por fim acharmos juntos um consenso, cheio de maleabilidade pra lá ou pra cá.

Ele quebrou minha dureza, me faz repensar. Me fez acreditar no impensável, em mim e na resiliência do amor. Tenho a-sorte-de-um-amor-tranquilo-com-sabor-de-fruta-mordida que me deixa de olhos marejados de orgulho; da nossa história, das nossas batalhas, da nossa cumplicidade.

Se não fosse pelas idéias dele eu não estaria onde estou. Se não fosse pelas minhas ele não estaria onde está. Nós estamos construindo esse infinito que é amor/casamento/família sabendo que ainda temos muito a conquistar e ainda muito a perder – o bom e velho paradoxo da escolha. 

Eu escolho você, Fabricio Cinelli. Com o mau humor matinal, com seu cuidado com a gente, com seus talentos, com a impaciência, lealdade e companhia. Todos os dias são nossos. Te amo. 

Tesoura

Das doçuras da vida:
Luiza ganhou da tia Rejane há pouco mais de um ano uma “tesoura” num jogo de massinha de modelar; amarela, minúscula e toda de plástico, perfeita pro propósito.
Aqui estamos, 3 anos e 4 meses de esperteza com as palavrinhas, uma ótima coordenação motora e a inocência do tamanho dum bonde.
Toda vez – toda vez mesmo – que eu mencionava que precisava de uma tesoura pra cortar algo, fosse um fio, uma corda, tecido ou papel, ela instantaneamente me dizia:
— com a minha amarela?
O tempo foi passando e eu passei a responder que aquela não dava, porque ela é de massinha. Hoje ela pediu pra tirar esse (gancho) prateado das cabeças da Swoops e da Mimi, eu disse que dava pra cortar com a tesoura.
— pode ser minha tesoura amarela de massinha?

A frase aumenta, a fofura permanece.

Manhei

Luiza há uma semana começou a usar um verbo novo, o MANHAR.

Filha, pega essa sacola pra mim? “Você tá manhando essa mamãe?”, “eu manho que vou de patinete”, “você manha que eu posso fazer isso? eu manho que não”, “mamãe, você manha que papai tá chegando?”.

Foram 3 dias de eu manho, você manha, está manhando até eu entender que ela traduziu o verbo meinen do alemão. Pra quem entende inglês, é parecido com o verbo to mean.

Agora alguém me avisa se é certo morrer de orgulho de um trem errado desse tanto?

Sobre relações sociais

Hoje cedo pipocou pra mim alguns trechos do Zuckerberg falando ontem sobre os escândalos do Facebook no congresso americano.
O que me impressiona nessa história é perceber como a gente se acostumou e aprendeu que o Facebook é mandatório pra moldar sua imagem na vida – como se o fato de se preocupar com sua imagem perante a sociedade já não fosse polêmico o suficiente, hshs. E o entendimento das nossas relações sociais passou a ter um único dono, que é o presidente executivo da empresa que gerencia nossas fontes de contato. É, no mínimo, muito estranho.

A ferramenta deixou de ser uma brincadeira com os amigos (eu entrei jogando Mafia Wars e outros joguinhos pra compensar a falta de um Nintendo na vida) e virou meio de vida, moldou minha área de formação e a profissão de muita gente. Eu parei de jogar, aprendi a compartilhar onde eu tava, o que eu penso, de quem eu gosto e o que eu como. Enquanto isso eu vi namoro balançado porque a pessoa não quis linkar o parceiro no perfil, já vi gente que soube do término da relação porque esse link sumiu, já vi gente brigando por ter lido nas entrelinhas do post alheio uma crítica que podia nem ser real, gente que se desdobra pra ter as mais belas imagens da vida pra ganhar curtidas e fica por conseguinte enlouquecido com o colecionamento desses cliques. Não estou falando de empresas.

Eu venho usando o Facebook cada vez menos, não saio porque tenho uma resposta muito positiva nos grupos que participo e eventualmente vou contar as perolinhas da minha pimpolha, mas essa página me dá muito mais desgosto do que prazer, e no desuso eu acabo ganhando. (app de grupos, sdds) Também tenho tentado dosar meus acessos, mantendo-os em determinados horários do dia, de preferência longe da Luiza – já que aquele feed não tem fim e a gente acaba se perdendo em quanto tempo estamos perdendo.

Aprendemos a nos conectar nos distanciando fisicamente, afinal sabemos da vida de todo mundo – ou das pessoas que o algorítimo nos permite ver – superficialmente; então o tomar um café ou ligar pra saber como estão perde o porquê. e existe toda uma geração moldada com essa base social calcada no virtual, não ha como voltar atrás – se é que isso seria vantajoso. O que noto é que a gente perde o tempo de cuidar das nossas vidas consumindo informação superficial com leads sensacionalistas (falsos ou não) enquanto rodamos esse feed com design viciante e salvamos trocentos links maneiríssimos que nunca iremos abrir, porque afinal temos uma vida pra cuidar. Ad infinitum.

Não creio que seja segregando que se desenvolve empatia, não sei se os debates políticos nos levam a algum lugar diferente do asco e do rancor, ou as pessoas não estariam se informando melhor caso fossem vítimas estivessem à mercê exclusivamente dos grandes meios de comunicação do Brasil.

Eu não sei sobre vocês, mas no meu feed só aparece gente anti-homofóbica, com consciência ecológica e que odeia qualquer linha de fascismo. Uma pena que na verdade o que lemos no Facebook está longe de ser a realidade popular.