Descobrindo

Ainda me intriga o poder dessa pequena criatura.
Me pego transbordando pensamentos bestas e preocupações (in)tensas – tentando descobrir quando e onde está meu recomeço… E por qual o motivo mesmo terminou? Um misto de culpa, ideia, vontade, medo, incertezas…
Volto num relance pro mundo real, e ali estão os olhinhos curiosos da pequena, me encarando de um jeito que nada diz – mas que sei que está a aprender. E sem pensar no exemplo (tenso), o pequeno olhar me encanta, esqueço os problemas e me vem um sorriso agradecido.
será que esse amor tem fim?

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E foi assim… (Parte 3: Relato de Parto)

Cheguei à 35.a semana com diversas dores e contrações de treinamento que vinham de forma ritmada, trazendo a sensação de trabalho de parto – os famosos alarmes falsos. Assim, tive avaliações constantes. Na 36.a semana estava com 1cm de dilatação. Na 37.a tinha “quase” dois. Na 38.a o médico disse que talvez não passássemos das 39 semanas. Com 39 semanas e 3 dias, no dia 28/11, sexta-feira – meu aniversário de 5 anos de casamento – tive uma consulta, em que o médico me disse que estava com 3cm. Saí de lá com a sensação de que Luiza só resolveria nascer às vésperas do Natal.
No sábado passamos um dia super tranquilo em casa. À noite a mexeção dentro da barriga bateu forte, não sabia se era uma festa de despedida ou um sinal de que as coisas iam muito bem por ali. Fomos dormir cedo. Às 2h30am do domingo eu acordei o marido durante uma contração “diferente” e disse que ela nasceria naquele mesmo dia.
Como mãe de primeira viagem, assim que comecei a sentir as primeiras contrações por volta das 8h30 da manhã, imaginei que teria todo um dia pela frente, esperando o trabalho de parto se desenvolver. Pensei nas caminhadas que teria que fazer pra ajudar na dilatação. Resolvi tomar um banho quente, seguindo o meu manual de instruções mental. Foi aí que comecei a me desorientar. Não consegui tomar banho, não conseguia medir o tempo entre as contrações, não conseguia ligar pro médico nem pro marido que tinha saído pra comprar um remédio pra mim… as contrações estavam muito próximas uma da outra e super intensas. BEM intensas.
Fabrício chegou e ligou pro médico, que pediu a ele que me desse um Buscopan e aguardasse por 1h para ver se teríamos melhora ou se iríamos para a Maternidade. Cerca de 15 minutos depois eu já estava com dores muito mais fortes, suando, pedindo pelamordedeus pra ele ligar novamente pro médico explicando que não ia dar pra esperar e eu queria uma anestesia urgente-aqui-agora! Assim ele resolveu ligar pra Natacha, minha fisioterapeuta que esteve me acompanhando nas últimas semanas, imaginando que ela poderia fazer algo que aliviasse a dor.
Ela chegou, passou a acompanhar o processo me ajudando a ficar mais confortável e a tal hora se passou. Nada estava sendo parecido com o que eu havia imaginado. Na minha ideia eu chamaria a Doula, conversaríamos, faríamos massagem, depois chamaria a fisioterapeuta já com um quadro mais avançado, faríamos alongamentos pra só depois chegar ao ponto de chamar o médico e ir pra maternidade… Ao invés disso eu estava ali entre gritos desesperados, impressionada com a dor! Era uma intensidade tão absurda e as contrações tão próximas que eu não conseguia conceber o fato de que teria que me deslocar até a sala – quanto mais até o hospital!
Quando consegui sair do quarto a bolsa se rompeu. Era quase 11h da manhã. Tive a impressão de que, apesar de mais constante, a dor intensa era mais breve. Dava pra sobreviver me mover. De alguma forma a iminência da dor intercalada com o ápice eram bem piores do que a constante.
Partimos instantes depois pro hospital. Mala, bola de pilates, contrações e aquela vontade inexplicável de fazer força, que eu tanto ouvi dizer nos depoimentos alheios. A Natacha me orientou que tentasse controlar a força antes da avaliação médica… haja auto controle!
Ao chegarmos à recepção notei a espera cheia de gestantes. Enquanto esperava mais uma contração cessar pra me levantar do carro, Fabrício disse à recepcionista que estávamos com o quarto humanizado reservado, aguardando o médico e com a bolsa já rompida. Ela o instruiu a pegar uma senha preferencial, e ele veio me contar com uma expressão mista de medo e incredulidade, rs… Me levantei do carro e entrei na maternidade pronta pra questionar o critério de “prioritário” num ambiente onde só existem gestantes, mas antes de abrir a boca chegou outra contração e um rapaz (também com expressão de medo) me ofereceu o lugar pra sentar. Tudo o que consegui dizer foi “NÃÃÃÃÃÃOOOO” e debruçar na pilastra mais próxima.
Ali permaneci gritando perguntando se iam me deixar ali mesmo até que me passaram pra dentro da sala de avaliação. A médica plantonista disse que estava com 10cm e já estava nascendo, perguntou se eu preferia ficar ali ou ir pra sala de parto no centro cirúrgico, pois a sala de parto humanizado estava reservada pro meu médico que estava atrasado. (Vou pular a parte do quanto ela foi mal humorada, irritante e dispensável)
Eu na posição horrorosa com as pernas pra cima na sala de parto e meu médico magicamente apareceu, me mandou descer da mesa, pediu pra buscarem a banqueta na sala humanizada, desligou o ar condicionado e boa parte das luzes e ainda pôs uma musiquinha me perguntando se eu queria escolher o que ouvir, rs.
Ali eu finalmente me senti confortável, tranqüila e em paz. Apesar do desespero que bateu quando ele disse que normalmente o expulsivo pode levar de 3 a 6 horas na primeira vez.
Mas Luiza tinha pressa, veio em mais ou menos 40min. Linda, perfeitinha, toda inchada e torta, roxinha e com um semblante tranquilo, ela veio direto pro meu peito. Não chorou! Papai disse com ela emaranhada nos nossos braços: “filha, você não vai chorar?”, e foi prontamente respondido por um breve e doce “nhé”!
Pesou, mediu, mamou e não houve nenhum procedimento que não autorizamos. E como de praxe, depois da passagem dela não senti mais nenhuma dor, apenas a euforia de ter minha filha entre nós! A euforia beirou o desorientamento, passei o dia abobada, falando pelos cotovelos e impressionada com a criaturinha que esteve todo esse tempo me acompanhando silenciosa, que agora soltava “miadinhos” e trazia tanta alegria ao mundo externo!
No dia seguinte, exatamente 24h depois de entrarmos no quarto da maternidade com a Luiza, estávamos a caminho de casa, com um bichinho pequeno, saudável e fofo num macacão vermelho, pra trazer sorte. O início de uma nova vida pra nossa pequena e linda família.

Importante: Nesse momento uma das coisas que mais me tocou foi a reação dos amigos – felicitações lindas, sinceras e emocionantes. Que Deus abençoe cada um :*

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E foi assim… (Parte 2)

Passei os últimos 18 meses – pelo menos – lendo relatos de parto na internet. Antes mesmo de saber que queria um parto natural, antes de pensar que teria minha filhota ainda em 2014, antes de ter certeza de que teria um bebê. Foi um lado da minha curiosidade e interesse sem fim pela forma em que a sociedade cria verdades que acabam cravadas na nossa cultura – e como o movimento pelo parto humanizado estava trazendo uma velha realidade à tona.
A coragem das mulheres em saírem da curva, enfrentarem suas famílias e seus médicos pra terem seu parto natural me emocionava – e ainda me emociona, mas agora com uma sensação mais nítida do que contam. Tenho uma avó que foi mãe de 17, com partos devidamente naturais, em casa, sem tecnologia ou supérfluos.
Com esse estudo prévio e apoio de uma amiga da época da faculdade que se tornou Doula, tive a impressão de que – quando chegou a minha vez – o movimento estava mais enraizado, desbravado, e tive várias indicações de pessoas conhecidas que passaram pelo mesmo. Me encantei pelos relatos da Casa de Parto de São Sebastião e comecei o pré natal pelo SUS, feliz por fazer meus impostos valerem a pena. Infelizmente não durou muito. O atendimento era sempre muito superficial e rápido, me davam sempre a impressão de que eu não devia dizer nada.
Foi aí que na 20.a semana comecei a ter contrações ritmadas e com dor, e meu médico só dizia que era “normal”. Ok, é normal… mas não é comum. Liguei e mandei mensagens diversas numa ocasião a caminho do hospital devido à uma sequencia de contrações, e não tive resposta. Meses depois tive um insight numa conversa com o marido: o atendimento que tive acesso no SUS fazia me sentir um bicho no veterinário. Mencionava a casa de parto e recebia um “tem certeza?!?!” e risadas de deboche. Tudo o que uma mãe de primeira viagem não precisa.
Quase na 30.a semana eu conheci o médico que me encantou não só pela sensibilidade, mas também por todo o seu lado metódico, o jeito de explicar tecnicamente timtim por timtim, com tabelas, dados e porcentagens. Era indicação de uma amiga que também estava grávida, que fez uma ampla pesquisa por um profissional mais humano. Ele nos deu explicações mais do que satisfatórias, sem correria, chamando eu e meu marido pelo nome, dando dados completos sobre sua forma de trabalho e como prioriza o parto sem intervenções.
Meu medo de uma eventual episiotomia (aquele “cortezinho” pra ajudar o bebê a passar), apesar do doutor não fazê-la há alguns anos, o fez me indicar uma fisioterapia, que terminou sendo um dos pilares do meu bem estar e da segurança que senti até o fim – com mais uma profissional indicada por amiga. A cada sessão de fisioterapia eu me sentia mais segura e ansiosa pela experiência do parto, de uma forma super positiva. Em outro ponto, outra indicação: fui atrás da professora de pilates que tem conhecimento amplo e um jeito especial de atender as gestantes.

Com essa preparação, estes profissionais, a compreensão do marido e telefonemas com a vovó, me senti cercada por anjos e cada vez mais feliz* e segura!

*Tirando os chiliques, o calor, as oscilações de humor e os intemperes da vida.

Continua…

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E foi assim… (parte 1)

Eu nunca gostei de bonecas. Nunca brinquei que tinha uma filha. Achava bom mudar as roupas da minha Barbie paraguaia, mas era muito mais uma associação com uma versão adulta de mim. Eu tinha mi-lha-res de bichos de pelúcia.
Daí conheço Fabrício, tenho uma major crush, nada acontece, o tempo passa, a gente se reencontra numa segunda de carnaval e começamos a namorar. Ele, em determinado momento, me diz que não tem interesse em namorar uma pessoa que não tem intenção de ter filhos. Eu não tinha intenção, mas não ia acabar com a brincadeira naquela hora, né? hshshs. Também não tinha nenhuma aversão. Assim seguimos.
Depois de alguns anos, casamento, shows, crises, recomeços, histórias, viagens e planos eu resolvi que era a hora. Claro que assim, racionalmente, não tem a menor graça. Passei a dizer que engravidaria “ano que vem” em 2013. Chegou 2014 e meu plano era claro: do meio pro fim do ano eu abriria a fábrica – já sabendo que depois de tantos anos com anticoncepcionais não seria fácil, o que me daria tempo suficiente pra estudar e assimilar tudo o que é necessário pra não ser uma mãe péssima. Era a vontade coberta de medo.
Ainda em 2013 descobri por meio de um diário que minhas enxaquecas mortais estavam sendo basicamente hormonais e passei a procurar por uma medicação que me ajudasse nesse ponto. Troquei 2 vezes de medicação e, na terceira tentativa, eu simplesmente aguardei pelo primeiro dia da menstruação, que obviamente com esse samba doido estava desregulada. E assim, irracionalmente, eu aguardei. E os peitos cresceram. Engordei. Peguei as calças da minha mãe pra ir trabalhar. Usei cinta. Comecei a sentir uma aversão a doce, e no terceiro dia consecutivo que eu pedi ao Fabrício pra gente almoçar “ovo com carne moída” ele quase me convenceu de que eu estava grávida. Ainda levei alguns dias pra fazer o teste.
Luiza estava na espreita. Parei o ultimo anticoncepcional no fim de janeiro e, pelos cálculos, ela resolveu vir pra este plano no início de março. Descobrimos no fim de abril, e minha reação não podia ser mais clássica: “agora f*deu”. Tava sozinha em casa, esperando Fabrício chegar e pensando “putzgrila meu chefe vai me matar”. Depois de minutos de extremo desespero, fui saindo do estado de choque. Marido chegou e teve a melhor das reações! Ele não podia ter ficado mais feliz, emocionado comecei a cair numa outra realidade: vi que Deus sabe muito bem o que faz e que o meu tempo não seria o tempo certo. Nosso bebê chegou com pelo menos 6 meses de antecipação do meu plano. E assim aprendi a primeira lição da maternidade, que basicamente é um reforço de uma lição básica de vida: não estou no controle.

E dançando conforme a música é que a gente vai descobrindo que não sabe de nada, que tem um monte de instintos, que felicidade não tem receita e, principalmente, o que é o tal amor incondicional.

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Continua…